Pontos Principais

Em março, o panorama climático global foi marcado pela perda de intensidade da La Niña e pela transição para condições neutras do ENOS. No Brasil, as precipitações ficaram abaixo da média na maior parte das bacias do SIN. Na virada para abril, o PLD registrou queda significativa em todos os submercados. O mês também marca a transição do período úmido para o seco.

Balanço do Brasil

Durante o mês de março, a distribuição das precipitações no SIN foi marcada por volumes abaixo da média na maior parte das bacias. O mês iniciou com um canal de umidade entre o Norte e o Nordeste, favorecendo chuvas localmente volumosas nessas regiões, mas o caráter irregular dessas precipitações limitou os acumulados. No Centro-Norte, o fechamento foi abaixo da média, com exceção do Madeira, onde o transporte de umidade recorrente favoreceu precipitações dentro da climatologia. Nas bacias do Sul, o fraco transporte de umidade combinado ao rápido avanço de sistemas transientes resultou em volumes abaixo da média.

No panorama climático global, março foi marcado pela desintensificação do fenômeno La Niña de fraca intensidade e pela transição para neutralidade do ENOS. O Índice de Oscilação Sul (SOI) permaneceu na fase positiva ao longo do mês. A MJO oscilou entre as fases 5, 7, 8 e neutra — fator que prejudicou as chuvas no Centro-Norte, especialmente na primeira quinzena. A AAO permaneceu predominantemente neutra, entrando na fase negativa apenas nos últimos dias do mês, o que pode ter impulsionado pontualmente as chuvas no Sudeste.

Diante dessa dinâmica, as chuvas nas diferentes regiões apresentaram os seguintes comportamentos ao longo de março:

  • Nordeste (NE) e Norte (N): Foram os grandes destaques do período. Beneficiados pela elevada oferta de umidade e posição favorável da ZCIT em determinados períodos, ambos deram saltos robustos em seus armazenamentos. O NE avançou de 73,25% (início de março) para expressivos 92,88% no início de abril, enquanto o N atingiu impressionantes 95,38%, no entanto, a média da energia natural afluente do mês abril apresenta uma queda.

  • Sudeste/Centro-Oeste (SE/CO): Apesar da redução das chuvas no mês, o subsistema conseguiu sustentar uma curva positiva devido às afluências residuais, elevando sua energia armazenada de 57,63% para 66,60%.

  • Sul (S): Continuou sendo o elo fraco do sistema. Prejudicado pelo forte bloqueio atmosférico que impediu o avanço de sistemas frontais e transientes, as bacias da região (como Uruguai, Iguaçu e Jacuí) mantiveram chuvas significativamente abaixo da média, fazendo o armazenamento despencar de 40,06% em março para críticos 30,79% em 09 de abril.

 

Comportamento de Mercado e Preço de Liquidação das Diferenças (PLD)

Nesta virada de março para abril, o PLD apresentou um forte recuo na primeira dezena de abril em todos os submercados frente às médias consolidadas de março, com o Sudeste cedendo para a casa dos R$ 230/MWh e o Norte/Nordeste operando em confortáveis R$ 166/MWh. A exceção em termos de estresse estrutural continua sendo o Sul (R$ 280,65/MWh), embora também tenha tido alívio em relação aos alarmantes R$ 425/MWh do mês anterior.

No início de março, a Curva Foward da BBCE apresentava inclinação descendente relativamente suave: o contrato com entrega em março estava cotado a R$ 421,09/MWh, refletindo o stress hídrico de curtíssimo prazo, e a curva recuava gradualmente para a faixa de R$ 359,75/MWh ao longo do restante de 2026, com uma queda mais abrupta para R$ 274,38/MWh na entrada de 2027.

Na curva atual, o perfil é bastante diferente. O vencimento de março já realizou (R$ 301,86/MWh – PLD), e a curva apresenta um vale pronunciado em maio/26, com o produto cotado a R$ 172,07/MWh — o nível mais baixo de toda a estrutura. A partir daí, a curva sobe gradualmente, atingindo R$ 218,92/MWh em junho, R$ 262,45/MWh em julho-setembro e R$ 303,16/MWh no 4T26, antes de recuar para R$ 257,91/MWh em 2027.

No âmbito regulatório e de planejamento, dois grandes eventos marcaram o setor no último mês e no início de abril:

  • Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP): Realizado no final de março de 2026, o certame foi um marco histórico de movimentação financeira (estimada na casa dos R$ 515 bilhões em contratos de longo prazo) e viabilizou a contratação robusta de potência para garantir a segurança de suprimento do sistema nos próximos anos, respondendo às necessidades de flexibilidade frente à crescente inserção de renováveis.

  • 1ª Revisão Quadrimestral do PLAN 2026-2030: Em abril, CCEE, ONS e EPE publicaram a revisão oficial da previsão de carga. Houve uma revisão para baixo da carga global (MWm), motivada por uma desaceleração econômica observada (com o PIB fechando 2025 com crescimento mais tímido, na casa de 2,3%) e ajustes estruturais. No entanto, a projeção de longo prazo ainda aponta para um crescimento médio de cerca de 4% ao ano até 2030, sustentado pela forte expansão de Data Centers e pela adequação na curva de adoção da Micro e Minigeração Distribuída (MMGD).

O PLD médio de março ficou em:

  • Sudeste/Centro-Oeste: R$ 310.86.41/MWh

  • Sul: R$ 425.57 /MWh

  • Nordeste: R$ 250.39/MWh

  • Norte: R$ 250.39/MWh

Panorama do El Niño

No cenário climático global, a atenção se volta para a possibilidade de formação de um El Niño ao longo do segundo semestre. A NOAA, em relatório publicado em 9 de abril, elevou a probabilidade de formação do fenômeno para 61% no trimestre entre maio e julho. As condições neutras do ENOS continuam presentes e devem persistir até o trimestre de abril a junho com probabilidade de cerca de 80%.

A previsão se baseia, entre outros fatores, no aumento das temperaturas subsuperficiais no Pacífico equatorial, que já se mantêm acima da média há cinco meses consecutivos. Os cenários projetados variam desde um evento de intensidade moderada até um episódio muito forte durante o próximo inverno do Hemisfério Norte.

Expectativas para Março

Abril aponta transição do período úmido para o seco. A dinâmica atmosférica mais intensa deverá permanecer sobre a Argentina na maior parte do mês, fazendo com que os acumulados fiquem abaixo da média nos Subsistemas Sul e Sudeste, com exceção do Alto Grande.

Entre o Norte e o Nordeste, a ZCIT, embora intensa na segunda quinzena, deverá permanecer posicionada mais ao norte que o normal, fazendo com que os acumulados também fiquem abaixo da climatologia nesses subsistemas. Apenas as bacias do Madeira e do Baixo São Francisco devem terminar o mês com acumulado próximo da climatologia.

A temperatura permanece acima da média ao longo de todo o mês e os ventos no Nordeste devem ficar, de forma geral, abaixo da média. Para maio, a perspectiva é de consolidação do período seco, com todas as bacias do Sul e Sudeste operando abaixo da climatologia.

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Leticia Pizzo

Letícia joined CZ's analysis team in 2022, on a 1.5-year internship while finishing her bachelor’s degree in business administration. Since joining our São Paulo team, she has developed soybean and corn market intelligence focused on Brazilian market. She is now responsible for all the grains data, as well as providing market insights for our app.
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