Pontos Principais

O sorgo está ganhando espaço no Brasil. A resiliência climática ajudou a aumentar a produção de 347 mil toneladas para 6 milhões de toneladas nas últimas quatro décadas. O início das exportações para a China e o uso do sorgo na produção de bioenergia devem posicionar a cultura como um ativo estratégico.

Altamente resistente à seca e adaptado a solos menos férteis, o sorgo passou de cultura secundária a ativo estratégico no Brasil. O cereal vem ganhando espaço como alternativa a culturas como o milho em janelas de plantio tardio, quando a semeadura ocorre mais tarde do que o habitual devido a fatores climáticos. 

Em menos de quatro décadas, a produção nacional saltou de 347 mil toneladas para cerca de 6 milhões de toneladas, impulsionada pela expansão do Cerrado, principal região produtora de grãos do Brasil. Somente nos últimos cinco anos, a produção aumentou 145%. Na última década, o crescimento atingiu aproximadamente 200%. 

Fonte: Conab

O desenvolvimento de variedades com alto potencial produtivo e tolerância ao estresse hídrico tem sido fundamental para essa expansão. O desempenho de novas cultivares, criadas pela Embrapa e outras instituições de pesquisa, tem se mostrado bastante satisfatório.

Muitas foram desenvolvidas especificamente para a região Centro-Oeste, oeste da Bahia e oeste de Minas Gerais — importantes centros produtores de grãos. Não surpreendentemente, essas regiões se destacaram na produção de sorgo. 

Fonte: Conab

Junte-se a isso o custo de produção atrativo, em média 30% menor do que o do milho da segunda safra, e a receita para o sucesso está pronta. 

Os produtores economizam em insumos: o sorgo, considerado uma cultura mais rústica, requer menos fertilizantes e pesticidas. Além disso, geralmente demanda menos água, outra vantagem importante. 

A remuneração do milho da segunda safra, no entanto, costuma ser maior do que o do sorgo, que ainda é cultivado em menor escala e com produtividade mais limitada. Enquanto a produtividade do milho da segunda safra ultrapassa 6 toneladas por hectare, a do sorgo tem ficado em torno de 3,5 toneladas por hectare. 

Fonte: Conab

É verdade que houve um salto nos últimos anos, mas a produtividade média brasileira ainda está abaixo do seu potencial agronômico, que ultrapassa 10 toneladas por hectare em áreas de manejo intensivo.

Esse resultado é alcançado com maior investimento na produção, incluindo o uso de insumos de alta qualidade e técnicas agrícolas aprimoradas. O controle rigoroso de pragas faz parte desse pacote. 

Exportações Devem Aumentar

Historicamente, as exportações de sorgo seguiram uma trajetória irregular, atendendo a demandas mais específicas do mercado global. A produção tem sido tradicionalmente voltada para o mercado doméstico, principalmente para a pecuária e a avicultura.

Nos últimos anos, no entanto, as vendas externas começaram a registrar um crescimento significativo. Em 2024, as exportações atingiram quase 180 mil toneladas, representando um aumento de 440% em relação ao ano anterior. 

Fonte: Comex

O Brasil ainda exporta significativamente menos sorgo do que a Argentina, um dos maiores exportadores mundiais da commodity. O país vizinho embarcou cerca de 1,5 milhão de toneladas de sorgo em 2024, segundo o USDA. 

Mas isso deve começar a mudar. Em novembro de 2024, o Brasil e a China assinaram um protocolo fitossanitário que garante a conformidade com normas de qualidade e controles sanitários. 

Como segundo passo deste acordo, em novembro deste ano dez estabelecimentos brasileiros passaram pelo processo oficial de aprovação pelas autoridades chinesas e foram autorizados a exportar sorgo para a China.

Plantação de sorgo

Essa é uma ótima notícia para o mercado brasileiro. A China é o maior importador mundial de sorgo, com uma demanda de aproximadamente 5,7 milhões de toneladas por ano, segundo o USDA.

Fonte: WITS

Nos últimos anos, a China tem substituído parte do milho usado na alimentação animal por sorgo, considerado uma alternativa mais econômica. Hoje, o Brasil é um dos maiores parceiros comerciais de Pequim no fornecimento de grãos. Em 2024, o gigante agrícola da América Latina exportou aproximadamente 2,2 milhões de toneladas de milho e 72,5 milhões de toneladas de soja para a China. 

O sorgo pode replicar uma trajetória de exportação semelhante à da soja e de outros grãos. Isso pode gerar uma série de vantagens competitivas para o mercado de sorgo, como contratos futuros padronizados e a atração de empresas interessadas em negociar a commodity. 

Mercado de Bioenergia Impulsiona Perspectivas para o Sorgo a Longo Prazo

Outro fator que pode reposicionar o sorgo no Brasil é o mercado de bioenergia. Usinas de etanol de milho vêm testando o sorgo como matéria-prima complementar para reduzir os riscos de abastecimento.

Entre as principais vantagens do sorgo estão sua alta capacidade de produção de biomassa e o ciclo de cultivo curto — normalmente, é de 90 a 120 dias, em comparação com 120 a 150 dias para o milho. 

Mas o mercado ainda precisa de maior previsibilidade e segurança, tanto para os produtores rurais quanto para a indústria. Há espaço, por exemplo, para melhorar a coordenação entre usinas e produtores em questões como planejamento de safras, prazos de entrega e volumes de compra.

Existe um caminho a ser trilhado. Mas, assim como aconteceu com a cana-de-açúcar há 30 anos, o sorgo tem tudo o que precisa para se consolidar como uma cultura estratégica. A integração às cadeias de suprimentos globais e o uso crescente da commodity na alimentação animal e na produção de bioenergia devem ser fundamentais nesse processo. 

Celso Moretti

Celso Moretti holds a degree in agronomy, an MBA, a master's degree, and a doctorate in food production. He served as head of Embrapa (Brazilian Agricultural Research Corporation) from 2019 to 2023, where he led a team of 8,000 employees, including 2,100 PhD researchers. Moretti is an alumnus of the Harvard Kennedy School (USA) and a visiting associate professor at the University of Florida (USA) since 2006. He is vice-president of the Board of Directors and CEO of The OpenAg Foundation (Switzerland); vice-president of the Board of the International Agricultural Research Advisory Group (France); a member of the Board of the International Potato Center (Peru); a member of the Board of the International Maize and Wheat Improvement Center (Mexico); a member of the Board of the Global Panel on Agriculture and Food Systems for Nutrition (United Kingdom), among others. In 2025, he was appointed a member of the Global Council of the World Agriculture Forum (WAF) and elected to assume the presidency of the CGIAR Board, an agricultural research network, in 2026.
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