Pontos Principais

O Brasil lançou seu plano climático visando alcançar emissões líquidas zero até 2050. A estratégia inclui diretrizes específicas para a agricultura, a expansão de práticas sustentáveis ​​e o fortalecimento de sistemas de produção de baixo carbono. As principais medidas incluem a recuperação de pastagens degradadas e a ampliação de técnicas como o sistema de plantio direto e o sistema de integração lavoura-pecuária-floresta.

Em dezembro passado, o Brasil aprovou o Plano de Mitigação e Adaptação às Mudanças Climáticas, que reúne um conjunto de estratégias para implementar ações voltadas à transição para uma economia com emissões líquidas zero de gases de efeito estufa até 2050. O programa inclui 16 planos setoriais. Agricultura, agricultura familiar e biodiversidade fazem parte da iniciativa.

O lançamento do programa ocorre em um contexto estratégico marcado pela intensificação de eventos climáticos extremos e pelo aumento da pressão regulatória internacional sobre o agronegócio.

 

Fonte: Ministry of Regional Development, National Confederation of Municipalities.

Na agricultura, as principais diretrizes são focadas no fortalecimento de práticas sustentáveis, transformando o desafio climático em vantagem competitiva. Soluções que já apresentam resultados encorajadores, como o Plano Setorial de Adaptação às Mudanças Climáticas e Baixas Emissões de Carbono na Agricultura (Plano ABC+), deverão ser expandidas.

Criado em 2020 como uma evolução da iniciativa lançada em 2010, o Plano ABC+ visa incentivar práticas como a recuperação de pastagens degradadas e o sistema de plantio direto, no qual as sementes são plantadas diretamente na palha da cultura anterior que é mantida na superfície e ajuda a conservar os nutrientes do solo.

                                                                                                      Sistema de plantio direto

O sistema de integração lavoura-pecuária-floresta também se destaca como uma estratégia sustentável que combina atividades agrícolas, pecuárias e florestais na mesma área, seja por meio de intercalação de culturas, sucessão ou rotação. Essa prática está em expansão no Brasil, otimizando o uso da terra e melhorando a fertilidade do solo.

Fonte: Embrapa

O Plano Safra, que oferece empréstimos com taxas de juros subsidiadas ao setor agrícola, já inclui linhas de crédito voltadas diretamente para práticas sustentáveis, como o sistema de integração lavoura-pecuária-floresta. O BNDES, por sua vez, oferece o RenovAgro, com taxas de juros pré-fixadas de até 8,5% — bem abaixo da taxa básica de juros, que é de 15% — para a recuperação de áreas degradadas e a implementação do manejo florestal sustentável.

A lógica do Plano Climático é precisamente expandir e fortalecer esse tipo de instrumento econômico, que facilita a transição para práticas de baixa emissão.

Um dos pilares fundamentais do plano é a recuperação de pastagens degradadas. A estratégia faz muito sentido: o país possui milhões de hectares de pastagens em diferentes estágios de degradação, com potencial para se tornarem áreas produtivas, reduzindo a necessidade de expansão das fronteiras agrícolas. O Brasil já vem avançando positivamente nessa direção.

 

Fonte: MapBiomas.

Em 2023, foi criado um programa público para converter pastagens degradadas em sistemas sustentáveis, com instrumentos como linhas de financiamento especiais e assistência técnica. O Plano Climático deverá fornecer recursos financeiros adicionais e capacitação para produtores rurais.

Implementação Irá Determinar o Impacto do Plano

De modo geral, a iniciativa representa uma oportunidade para avanços significativos no agronegócio brasileiro. Se suas diretrizes forem implementadas conforme planejado, poderão facilitar o cumprimento das novas regulamentações internacionais, como o EUDR (Regulamento da UE para Produtos Livres de Desmatamento).

O regulamento, que deverá ser implementado até o final deste ano, exigirá comprovação de que os produtos importados pela UE não contribuíram para o desmatamento.

O Plano Climático também deve estimular avanços na certificação ambiental e a adoção de processos de rastreabilidade mais robustos, que tendem a reduzir os riscos regulatórios. Com isso, a previsibilidade contratual e os pagamentos de prêmios vinculados à sustentabilidade podem ser ampliados.

O sucesso do Plano Climático, no entanto, dependerá de aspectos como transparência metodológica, metas setoriais realistas e estimativas de investimento claras. A iniciativa poderá entrar para a história como um instrumento de liderança estratégica ou como uma peça retórica. A diferença residirá na qualidade da sua implementação.

A man in a gray suit and tie stands in front of a blurred world map background, looking at the camera with a slight smile.

Celso Moretti

Celso Moretti holds a degree in agronomy, an MBA, a master's degree, and a doctorate in food production. He served as head of Embrapa (Brazilian Agricultural Research Corporation) from 2019 to 2023, where he led a team of 8,000 employees, including 2,100 PhD researchers. Moretti is an alumnus of the Harvard Kennedy School (USA) and a visiting associate professor at the University of Florida (USA) since 2006. He is vice-president of the Board of Directors and CEO of The OpenAg Foundation (Switzerland); vice-president of the Board of the International Agricultural Research Advisory Group (France); a member of the Board of the International Potato Center (Peru); a member of the Board of the International Maize and Wheat Improvement Center (Mexico); a member of the Board of the Global Panel on Agriculture and Food Systems for Nutrition (United Kingdom), among others. In 2025, he was appointed a member of the Global Council of the World Agriculture Forum (WAF) and elected to assume the presidency of the CGIAR Board, an agricultural research network, in 2026.
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