Pontos Principais
Os sistemas intensivos de produção leiteira estão impulsionando a produção de alfafa no Brasil. Esses modelos de produção exigem ração de alta qualidade, promovendo a expansão do setor de alfafa. No mercado internacional, a demanda do Oriente Médio vem crescendo devido às restrições hídricas para a agricultura e à necessidade de alimentar rebanhos em expansão.
A alfafa, historicamente marginal no agronegócio brasileiro, começa a ganhar relevância estratégica diante da crescente demanda nos mercados nacional e internacional. Domesticamente, o uso de sistemas intensivos de produção leiteira e de carne tem impulsionado o cultivo de alfafa de qualidade superior, com alto teor de proteína e minerais — essenciais para uma boa nutrição animal.
O próprio aumento na produção leiteira está impulsionando o mercado de alfafa. Em 2024, o Brasil bateu um recorde com a produção de 35,7 bilhões de litros de leite. Neste ano, espera-se um crescimento considerável de 7% a 10%, principalmente devido ao aumento da produtividade.

Fonte: IBGE
A remuneração pela alfafa de alta qualidade tem acompanhado esses indicadores positivos. Atualmente, o pagamento aos produtores varia entre BRL 1.300 por tonelada (USD 260 por tonelada) e BRL 2.900 por tonelada (USD 580 por tonelada). A alta faixa de preços pagos pela alfafa de qualidade premium é superior ao de culturas como milho, sorgo e trigo.
Produção em Ascensão
Estima-se que o Brasil possua atualmente cerca de 35 mil hectares de alfafa — um número ainda modesto, mas com potencial de crescimento. É importante observar que, ao contrário de culturas como soja e milho, não existem estatísticas oficiais detalhadas sobre a alfafa. As informações disponíveis são principalmente da Embrapa e de publicações do setor.
Em todo caso, é possível inferir que a área plantada e a produção vêm crescendo, atingindo cerca de 350 mil toneladas por ano. A região sul do Brasil, com clima mais propício à cultura, tem se destacado no cultivo da planta.

Fonte: compilado por Celso Moretti. O modelo adotado considerou uma produtividade média da cultura de 10 toneladas/ha, abaixo dos valores experimentais (até 30 toneladas/ha sob irrigação), refletindo a mistura de áreas irrigadas e de sequeiro.
Regiões como o noroeste do Rio Grande do Sul já operam áreas com produtividade de 11-12 toneladas por hectare em sistemas convencionais. Em sistemas irrigados, a produtividade costuma ser muito maior.
Com manejo intensivo, irrigação e mecanização moderna, os produtores podem alcançar mais de 25 toneladas por hectare e até 12 colheitas por ano. Esses indicadores colocam o Brasil no radar das regiões mais produtivas do mundo.
As oportunidades mais promissoras para expansão incluem a crescente demanda por ração para vacas leiteiras de alto desempenho, com as negociações de preço da alfafa vinculadas aos parâmetros nutricionais.

O aumento do uso da irrigação também deverá permitir maior estabilidade no fornecimento e colheitas contínuas. A crescente demanda internacional, especialmente por alfafa de alta qualidade, completa essa tríade encorajadora.
Países Árabes Investem em Importações de Alfafa
Externamente, a crescente demanda de países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Iraque — impulsionada pela escassez de recursos naturais para a agricultura — tem contribuído para esse crescimento encorajador.
Nos últimos anos, países do Oriente Médio e do Norte da África têm restringido o uso de água para a agricultura. A Arábia Saudita chegou a proibir o cultivo de forragem verde em 2018, optando pelas importações.

Fonte: Comex
Somente na Arábia Saudita, a demanda futura por alfafa é estimada em 7 milhões de toneladas por ano. Até 2030, espera-se que esse mercado gere USD 62 milhões no país.
Esse movimento — observado em diversos países árabes e do Norte da África — está ancorado na necessidade de suprir a demanda por ração rica em proteínas para ruminantes, cavalos e camelos.
No Marrocos, a escassez de água também está impulsionando as importações de alfafa e outras espécies vegetais. Os Emirados Árabes Unidos, por sua vez, estão investindo na produção leiteira em larga escala como parte de sua estratégia de segurança alimentar, com o aumento das importações de ração para o rebanho. O objetivo é reduzir a dependência de compras externas de produtos lácteos.
As exportações brasileiras cresceram em grande parte devido a essa tendência. Embora ainda não tenham atingido volumes significativos, as vendas para o exterior dispararam nos últimos três anos.

Fonte: Comex
Desafios da Alfafa
Um dos maiores desafios do mercado brasileiro é a falta de padronização. Por décadas, os produtores venderam feno sem garantias quanto ao teor de proteína bruta e parâmetros como Fibra em Detergente Neutro (FDN), Fibra em Detergente Ácido (FDA) e Valor Nutricional Relativo (VNR), que são essenciais para determinar a qualidade do produto.
Os compradores, por sua vez, aceitavam enormes variações de qualidade, pagando aos produtores pelo peso — e não pelos padrões nutricionais. Essa situação está mudando.
Um importante indicador dessa mudança é a recente proposta de criação de um sistema de classificação da alfafa brasileira. O tema foi submetido à consulta pública pelo Ministério da Agricultura em abril deste ano. A expectativa é de que a medida seja aprovada após a análise das sugestões apresentadas por técnicos, produtores e pelo mercado em geral.

Alfafa
Também é necessário continuar expandindo o uso de variedades de alfafa no Brasil, com o desenvolvimento de cultivares adaptadas às diversas regiões. O país já vem caminhando nessa direção, superando a excessiva dependência da cultivar Crioula, mas ainda há muito a ser feito.
Outro desafio é a secagem da alfafa em regiões mais úmidas, como o Sul. A planta precisa secar após o corte; caso contrário, corre o risco de perder nutrientes e até mesmo apodrecer. O uso de galpões cobertos é essencial.
A cultura também é vulnerável a diversas pragas, exigindo manejo preciso e controle cuidadoso dos insetos que causam doenças. Mas nenhum desses desafios é insuperável. Eles são conhecidos, mensuráveis e dependem essencialmente de investimento e estratégia.