Pontos Principais

O Brasil enfrenta uma inflação crescente dos alimentos devido aos custos dos fertilizantes. O aumento no preço dos insumos, impulsionado pelo conflito no Irã e pelas disrupções no fornecimento, está elevando os custos de produção e impactando o preço dos alimentos e os orçamentos familiares. À medida que a pressão se estende por toda a cadeia de embalagens e suprimentos, o consumo está diminuindo, com os consumidores comprando menos e optando por alternativas mais baratas.

Custos dos Fertilizantes Elevam o Preço dos Alimentos

Três meses após o início da guerra no Irã e o fechamento do Estreito de Ormuz (por onde passam um quinto do petróleo mundial e 20% dos fertilizantes exportados), a atenção se volta cada vez mais para o impacto do conflito na inflação e no consumo dos alimentos.

O preço dos nutrientes agrícolas subiu mais de 22% no porto de Santos desde o início do conflito no final de fevereiro, impactando os custos de produção no campo. A ureia, amplamente utilizada em culturas como milho, frutas e hortaliças, registrou o maior aumento, superior a 40%, segundo a Comex. Entre janeiro e abril, o preço dos fertilizantes subiu 33%.

Fonte: Comex

O impacto na inflação dos alimentos tem sido visível. O índice preliminar de preços de maio indica que o preço dos alimentos consumidos em casa aumentou 1,73% em comparação com abril. O aumento foi impulsionado por itens como a batata, que subiu 26,3%. A produção de batata depende do uso intensivo de ureia. O excesso de chuvas nas regiões produtoras de Minas Gerais e Paraná também contribuiu para a alta dos preços.

Outros alimentos, como cebola, tomate e leite, também sofreram reajustes de preço, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Fonte: IBGE

Os produtos da chamada cesta básica — um conjunto de alimentos e bebidas considerados essenciais para o consumo — registraram um aumento de cerca de 4% em maio.

Orçamentos Familiares Sob Pressão

“O peso desses ajustes nos orçamentos das famílias de baixa renda, que são a maioria no Brasil, é significativo e pode até impactar o consumo”, afirma André Braz, economista da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Mais de 60% da população ativa brasileira ganha até dois salários mínimos por mês, o equivalente a R$ 3.242 (USD 641,7), segundo o IBGE. Famílias com renda padrão de cerca de R$ 3.613 (USD 717,7) por mês gastam, em média, R$ 790 em compras de supermercado e R$ 1.300 em contas básicas, como luz, internet e gás, de acordo com a NielsenIQ. O restante é destinado ao pagamento de dívidas e despesas como aluguel, deixando pouca margem no orçamento.

Fonte: IBGE

A alta taxa de juros no Brasil, em 14,5% ao ano, já está impactando os pagamentos de dívidas e empréstimos. O aumento na inflação, atualmente em quase 5% ao ano, também não ajuda.

Caso a guerra no Oriente Médio não termine em breve, deve ocorrer um aumento ainda maior nos preços nos próximos meses. Por enquanto, ainda existem alguns estoques de produtos como fertilizantes e resinas plásticas, utilizados na fabricação de diversos itens, desde sacolas plásticas e embalagens de alimentos até blisters de medicamentos.

Consumo Diminui à Medida que os Custos Aumentam

No campo, os custos continuam subindo, com um aumento generalizado no preço dos fertilizantes e pesticidas. Como resultado, o impacto no consumo se tornou evidente.

Uma pesquisa recente da NielsenIQ mostra que, entre janeiro e março deste ano, houve uma queda de 70% nas categorias de produtos encontradas em supermercados, em comparação com o mesmo período de 2025. Os preços aumentaram e o número de itens nos carrinhos de compras diminuiu: o volume de compras caiu 1,9% no primeiro trimestre, segundo a pesquisa.

Os dados não são surpreendentes, embora sejam preocupantes para varejistas e para o setor agropecuário. Nos últimos anos, produtos como leite UHT e derivados, que vêm sofrendo reajustes de preços devido à queda na produção e ao aumento dos custos, registraram redução no consumo. Entre 2014 e 2025, as vendas de laticínios caíram 8,3% no Brasil, segundo a Euromonitor.

Fonte: Euromonitor

Os brasileiros também estão comprando menos carne vermelha. Este ano, o consumo deve chegar a 7,6 milhões de toneladas, vs. 7,5 milhões de toneladas em 2025, mas ainda 6% menor do que em 2024. Os consumidores estão optando por aves e ovos, mais baratos, em vez de carne bovina.

 

Fonte: ABPA

Esse comportamento deve intensificar se os preços continuarem a subir. “Agora, existe um fator adicional de pressão inflacionária, que é o choque da oferta de petróleo e seus derivados, assim como de outros produtos, causado pela guerra no Irã”, afirma Braz.

O aumento contínuo no preço do polietileno tem impactado a inflação de forma mais ampla. O material é utilizado na fabricação de diversos produtos, desde embalagens a sacolas plásticas e tubos para sistemas de esgoto, e é um subproduto do petróleo.

De acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (ABIA), as embalagens representam cerca de 15% dos custos do setor alimentício. “Isso amplia a transmissão do aumento de custos ao longo da cadeia produtiva”, afirma a entidade em um comunicado.

Já existem relatos de aumentos de até 40% nos preços das embalagens. Os processadores de plástico têm absorvido parte do aumento dos custos de matérias-primas essenciais, como o polietileno e o polipropileno, que foram reajustados em 70% desde o início da guerra no Irã, segundo a consultoria ICIS.

Mesmo que o setor alimentício não repasse integralmente o aumento no preço das embalagens, o impacto nos custos finais deve ser significativo. Afinal, qualquer diferença em um setor altamente sensível a ajustes de preços costuma ser relevante.

O fim das hostilidades no Oriente Médio deve abrir caminho para uma redução gradual das pressões sobre os preços, especialmente nas cadeias de suprimento mais dependentes do petróleo e dos seus derivados. Ainda assim, mesmo nas projeções mais otimistas, o retorno a níveis de preços menos inflacionados deve demorar pelo menos alguns meses.

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Carla Aranha

Carla joined CZ in 2022 having previously worked at Exame and Valor, leading economic media outlets in Brazil, where she developed projects and news coverage focusing on the agribusiness and commodities markets. Carla is responsible for writing content, providing interesting article´s subjects and reports as well as producing press releases together with the marketing team.

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