Pontos Principais

O Senado dos EUA aprovou um projeto de lei para encerrar a paralisação do governo dos EUA. Isso coincide com a tentativa de reaproximação nas relações comerciais China–EUA, com Pequim retomando as compras de soja e trigo e ambos os países adiando as taxas portuárias punitivas. As medidas tarifárias de Trump estão sendo contestadas na Suprema Corte, enquanto a Pfizer adquiriu a Metsera, desenvolvedora do GLP-1, em um acordo de USD 10 bilhões. 

Senado Toma Medidas para Encerrar a Paralisação Mais Longa do Governo dos EUA 

O Senado dos EUA aprovou um projeto de lei de gastos com o objetivo de encerrar a paralisação governamental mais longa da história do país, votando 60-40 a favor da medida. A legislação agora segue para a Câmara dos Representantes, onde a votação é esperada para esta semana. Se aprovada, a lei seguirá para a Casa Branca para a assinatura do presidente Trump, reabrindo formalmente o governo.

Ainda existem obstáculos importantes na Câmara, incluindo disputas sobre subsídios para a saúde. Os democratas pressionam para estender os créditos fiscais para cerca de 24 milhões de americanos, enquanto os republicanos propõem tetos de renda e pagamentos diretos a indivíduos. O resultado dessas negociações determinará se o projeto de lei poderá ser aprovado na Câmara sem grandes adiamentos.

Uma resolução para a paralisação é importante para a agricultura, já que agências federais como o USDA e os escritórios comerciais enfrentaram interrupções operacionais. A reabertura do governo vai restabelecer o processamento normal dos programas de apoio agrícola, inspeções comerciais e certificações de exportação, reduzindo a incerteza para produtores e exportadores agrícolas. 

Embora a paralisação tenha atrasado muitas operações federais, o USDA manteve os esforços de coleta de dados para seu relatório de produção agrícola de novembro, previsto para 14 de novembro, que atualizará as estimativas de produtividade e produção de culturas importantes, incluindo o milho e a soja.

Pequim se Compromete com a Compra de Produtos Agrícolas dos EUA

Após o encontro da semana passada entre o presidente dos EUA, Donald Trump, e o presidente chinês, Xi Jinping, a China anunciou sua maior reaproximação com a agricultura dos EUA em mais de um ano. 

Pequim se comprometeu a comprar 12 milhões de toneladas de soja dos EUA até o final de 2025, com um compromisso de pelo menos 25 milhões de toneladas anuais pelos próximos três anos. A China também restabeleceu as licenças de importação de soja para a CHS, Louis Dreyfus e EGT, e a estatal COFCO reservou diversos carregamentos dos EUA antes do encontro, aparentemente como um gesto de boa vontade.

A reaproximação comercial se estende a outros grãos. A China comprou seu primeiro trigo dos EUA em mais de um ano — 120 mil toneladas do trigo mole e do trigo de primavera — após remover uma tarifa de 15% sobre os suprimentos americanos. Um carregamento de sorgo dos EUA também está a caminho, o primeiro desde que Pequim suspendeu sua tarifa de 10% sobre o sorgo. Ambas as medidas foram bem recebidas por grupos agrícolas americanos que esperam retomar as exportações após meses de atritos comerciais.

Fonte: Global Trade Tracker

Mas permanece incerto se esses compromissos se traduzirão em compras sustentadas. Discutimos como a safra brasileira de soja de 2025, de 169 milhões de toneladas — com previsão de outra safra recorde para 2026 — continua a pressionar os preços para baixo e a reduzir a breve janela no início de 2026, quando a soja dos EUA poderá ser comercialmente competitiva. O mercado de futuros de Dalian, na China, reflete essa dinâmica, indicando apenas um curto período de potencial viabilidade para os EUA antes da chegada da nova safra brasileira.

Obs.: Preços de fechamento da soja nº 2 (não transgênica) em 7 de novembro de 2025 

Fonte: Dalian Commodity Exchange (DCE) da China 

Ao mesmo tempo, a alta nos preços futuros de Chicago após o encontro eliminou a vantagem de preço dos EUA, levando a soja americana a um prêmio, mesmo com os processadores chineses enfrentando margens negativas e estoques elevados. Com a soja dos EUA ainda sujeita a uma tarifa 10 pontos percentuais maior do que a de origem sul-americana, os traders permanecem cautelosos. Analistas afirmam que quaisquer compras adicionais dos EUA provavelmente seriam impulsionadas pela formação de reservas estatais, e não pela demanda do mercado, a menos que os preços sofram uma mudança decisiva a favor dos EUA. 

Fonte: CBOT, CEPEA

Taxas Portuárias Adiadas 

Como parte do alívio das tensões entre os EUA e a China, ambos os países concordaram em adiar medidas punitivas nos portos, permitindo que as empresas de transporte marítimo respirassem aliviadas.

O Escritório do Representante Comercial dos EUA anunciou que suspenderá a cobrança de taxas portuárias adicionais até novembro de 2026. “Durante a suspensão, os Estados Unidos negociarão com a China, de acordo com a Seção 301, para abordar os atos, políticas e práticas em questão nesta investigação, assim como continuarão a colaborar com aliados importantes para aumentar a capacidade de construção naval dos EUA”, informa o comunicado oficial. 

Em retribuição, a China suspendeu suas contramedidas contra cinco subsidiárias americanas da empresa coreana Hanwha Ocean, assim como as taxas portuárias retaliatórias cobradas de navios americanos que atracam em portos chineses.

As medidas causaram turbulência no setor naval, considerando que os navios chineses representam uma enorme parcela da frota global. Para esses navios, os EUA propuseram uma taxa por tonelada de USD 18, que aumentaria gradualmente para USD 33 até 2028. 

Além disso, os EUA queriam impor uma taxa de USD 50/tonelada para navios de propriedade ou operados pela China que atracassem em portos americanos. Por sua vez, a China propôs uma taxa de CNY 400/tonelada para navios de propriedade, operados ou com bandeira dos EUA, aumentando para CNY 1.120/tonelada até 2028. O mesmo se aplicaria a navios construídos nos EUA. 

Embora transtornos tenham sido evitados por ora, é provável que o presidente Trump continue a desafiar o domínio da China na construção naval. Os EUA ficaram muito atrás da superpotência asiática em termos de capacidade. 

As principais rotas marítimas Ásia-EUA, que vinham apresentando sinais de enfraquecimento em outubro, começaram a mudar de rumo após o acordo entre os presidentes. 

Fonte: Drewry

Tarifas do Presidente Trump em Contestação

As tarifas impostas pelo presidente podem ser alvo de contestações por parte da Suprema Corte, de maioria republicana. Diversas pequenas empresas têm contestado as medidas comerciais, que agora chegaram à mais alta corte do país. 

Amy Coney Barrett, indicada para a Suprema Corte por Trump, expressou ceticismo quanto à possibilidade de países europeus como Espanha e França representarem uma ameaça à defesa nacional e à indústria. O Juiz-Chefe da Suprema Corte, John Roberts, indicado pelo também republicano George W. Bush, questionou o amplo alcance das medidas, demonstrando preocupação com o poder de impor tarifas “sobre qualquer produto de qualquer país, em qualquer quantidade e por qualquer período de tempo”. 

Tradicionalmente, é o Congresso, e não o presidente, que detém o poder de impor medidas comerciais desse tipo. 

Há agora uma crença generalizada crescente de que a corte considerará as medidas ilegais, dando início a um processo de encerramento das mesmas, o que poderá custar trilhões de dólares. 

Fonte: Kalshi

Pfizer Vence a Disputa pelo Medicamento GLP-1

O mercado de agonistas do receptor GLP-1 continua a se expandir rapidamente, com a gigante farmacêutica americana Pfizer tendo adquirido recentemente, por USD 10 bilhões, a Metsera, uma empresa de biotecnologia que desenvolve medicamentos experimentais para a obesidade. 

A recente aquisição da Metsera pela Pfizer é um desenvolvimento notável para o mercado de alimentos. Como já discutimos anteriormente, os medicamentos GLP-1 têm o potencial de reduzir o apetite e conter o consumo impulsivo de alimentos calóricos. Com a expiração da patente de medicamentos importantes como a semaglutida (Ozempic/Wegovy) em 2026, espera-se que versões genéricas ampliem o acesso a esses medicamentos em países como Índia, Brasil, China e Canadá, o que pode acelerar essa tendência e ter implicações para a demanda por açúcar e para os setores agrícolas relacionados. 

A aquisição realizada pela Pfizer reflete a crescente escala e comercialização das terapias com GLP-1 — uma tendência que pode alterar os padrões alimentares e reduzir as previsões de consumo de açúcar. 

Sinais Mistos de Demanda por Biocombustíveis

Com a atenção global voltada para a COP30 no Brasil, o ímpeto político em torno dos biocombustíveis envia sinais mistos. Cientistas pedem que os líderes mundiais contenham a expansão dos combustíveis derivados de culturas agrícolas, alertando que seus custos ambientais e sociais superam seus benefícios climáticos. 

Contudo, à medida que os apelos à moderação se intensificam, os governos continuam a impulsionar novas iniciativas de biocombustíveis. O Ministério do Comércio da China manifestou recentemente apoio à mistura de biodiesel produzido domesticamente com óleo combustível marítimo, parte de uma iniciativa mais ampla para expandir o uso de combustíveis verdes no país. Embora os detalhes da implementação permaneçam vagos, o anúncio demonstra o interesse contínuo de Pequim na bioenergia como componente de sua estratégia de descarbonização. 

No entanto, também houve resistência ao uso de biocombustíveis no transporte marítimo. Organizações ambientais solicitaram à Organização Marítima Internacional (OMI) para excluir biocombustíveis com altas emissões — como os produzidos a partir de soja e óleo de palma — de sua Estrutura de Emissões Líquidas Zero. O debate ocorre no momento em que a OMI concordou em adiar sua sessão de outubro de 2025 sobre a adoção da Estrutura de Emissões Líquidas Zero para 2026, a fim de permitir mais tempo para criar um consenso. 

Os biocombustíveis representam uma importante fonte de demanda para culturas como cana-de-açúcar e milho, e uma queda na demanda por esse combustível renovável poderia ter impactos significativos nos preços das commodities, que já estão enfrentando dificuldades por causa das safras recordes. 

Fonte: EIA

Em Outras Notícias: 

  • FAO Relata Queda nos Preços dos Alimentos em Meio à Produção Recorde de Cereais: Os preços globais das commodities alimentares caíram em outubro, com cereais, carne, laticínios e açúcar apresentando quedas, enquanto os óleos vegetais registraram leve alta. Ao mesmo tempo, a FAO prevê uma produção mundial de cereais de 2,99 bilhões de toneladas em 2025, com estoques globais em um recorde de 916,3 milhões de toneladas e um aumento de 3,2% no comércio, impulsionado pelas fortes importações de trigo na Ásia. 

  • Oferta Global de Leite Supera a Demanda: Segundo um relatório recente, os produtores de leite enfrentam um cenário desafiador, com a produção global superando a demanda, o que leva ao aumento dos estoques e à pressão sobre os preços da commodity. O índice Global Dairy Trade registrou seis quedas consecutivas, com destaque para o queijo cheddar (-6,6%) e a manteiga (-4,3%). A produção na União Europeia apresenta sinais mistos, com crescimento na Irlanda e na Polônia compensado por quedas na França, Alemanha e Países Baixos, e a expectativa é de que as margens de lucro permaneçam pressionadas até 2026. 

 Fonte: Trading Economics

  • Paralisação das Operações de Nitrogênio da Nutrien em Trinidad: As operações de nitrogênio da Nutrien em Point Lisas, Trinidad, permanecem paralisadas, o que pode afetar as exportações de amônia e ureia para os EUA, onde Trinidad é o segundo maior fornecedor de amônia. Embora a produção norte-americana deva suprir a demanda interna, uma interrupção prolongada pode limitar a oferta global e elevar os preços, com a amônia anidra já tendo subido 21% em relação ao ano anterior, atingindo USD 828/tonelada.

  • Pirataria Aumenta na Costa da Somália: A pirataria na costa da Somália tem aumentado de forma acentuada desde outubro, com barcaças e navios-mãe sequestrados sendo usados para realizar ataques com RPGs (lança-granadas) e armas automáticas. Vários incidentes envolveram as embarcações HELLAS APHRODITE, STOLT SAGALAND e SPAR APUS. O aumento levou ao reforço das patrulhas e destaca os riscos contínuos para o transporte marítimo.

Lucas Blaxall

Lucas joined CZ in August 2024 after graduating from Queen Mary University of London. As an intern on the analyst team, he contributes to managing and editing content across CZ's digital platforms.
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