Pontos Principais

O uso de xarope de milho em refrigerantes ganhou atenção após o apelo do presidente Trump para que o açúcar voltasse à fórmula das bebidas. O debate remonta à década de 1970, quando os preços do açúcar aumentaram. Desde então, mudanças nas preferências dos consumidores e na dinâmica do comércio global têm mantido viva a discussão sobre adoçantes. 

O debate em torno do uso de xarope de milho ou açúcar em refrigerantes nos EUA, recentemente trazido à tona pelo apelo do presidente Donald Trump para que o açúcar voltasse às fórmulas das bebidas, pode parecer novo. Mas a história remonta a muito mais tempo — e tem a ver com mudanças na dinâmica dos preços do açúcar e investimentos em novos adoçantes, como o xarope de milho.

Nas últimas décadas, no entanto, o xarope de milho rico em frutose (HFCS), que ganhou espaço há algumas décadas, vem dando lugar ao açúcar. Essa transição reflete uma mudança nos hábitos de consumo, com o público cada vez mais se voltando para ingredientes naturais e alimentos menos processados — uma tendência crescente.

Fonte: USDA

Ao mesmo tempo, nos últimos anos a ideia de que o xarope de milho está ligado a condições como diabetes se espalhou, embora não haja evidências científicas conclusivas. Diante desse cenário, a indústria aumentou o investimento em ingredientes que sejam mais facilmente aceitos pelos consumidores.

Enquanto isso, a produção de bebidas sazonais também ganhou destaque. Um bom exemplo ocorre durante a Páscoa judaica, quando refrigerantes açucarados são lançados — uma escolha motivada pelo fato de que, durante esse período, grãos como o milho são evitados devido a tradições religiosas.

HFCS Impulsiona Mercado de Adoçantes na América do Norte

O xarope de milho rico em frutose é produzido a partir do amido de milho, cuja glicose é convertida em frutose por meio de uma série de reações químicas.

Esse processo produz dois tipos de xarope de milho: HFCS-55 e HFCS-42. O HFCS-55, que contém 55% de frutose e tem um sabor mais adocicado, é normalmente usado na produção de refrigerantes.

O HFCS-42, com 42% de frutose e maior facilidade de mistura com outros ingredientes, é mais amplamente utilizado na indústria alimentícia. Nos EUA, produtos como sorvetes, iogurtes, biscoitos e frutas em conserva são frequentemente adoçados com esse xarope.

Em grande parte do mundo, no entanto, o HFCS raramente é usado. Em países como Brasil, México e China, por exemplo, os refrigerantes são adoçados com açúcar.

O HFCS é mais prevalente na América do Norte e no Leste Europeu, principalmente devido às diferenças de preço. No entanto, a demanda por xarope de milho aumentou em regiões onde a renda aumentou, impulsionando o consumo de alimentos e bebidas processados. Esse é o caso em países como Índia e Indonésia.

A fabricação de xarope de milho também vem evoluindo com inovações tecnológicas que podem reduzir custos e aumentar a produção. Apesar disso, o setor enfrenta desafios significativos: pressões regulatórias e preocupações com os impactos na saúde do consumidor estão ganhando força. A crescente preferência por adoçantes considerados mais naturais — como açúcar, mel e xarope de agave — é outro fator relevante nesse cenário.

Questões geopolíticas e mudanças significativas na dinâmica do comércio global, como as tarifas de Donald Trump, também podem impactar a escolha entre o HFCS e outros adoçantes. O jogo está em aberto — e será decidido por uma ampla gama de fatores.

Origem do Debate

O tema surgiu pela primeira vez na década de 1970, quando os preços do açúcar dispararam. Para se ter uma ideia, em 1974, o preço da commodity aumentou mais de 200% em relação ao ano anterior. Em 1980, atingiu um novo pico. Os preços só se estabilizariam relativamente nas décadas seguintes.

Fonte: Bloomberg.

A disparada do custo do açúcar, ingrediente fundamental na fabricação de uma série de alimentos e bebidas, se tornou até temas de estudos e investigações da CIA e esteve nas páginas dos principais jornais americanos, em extensas reportagens.

Pressões Inflacionárias Assustam o Mercado

Uma das maiores preocupações girava em torno da pressão inflacionária exercida pelo alta do preço da commodity. Com os Estados Unidos imersos em uma recessão, que durou de 1973 a 1975 – em razão de fatores que vão da guerra do Vietnã à escalada da cotação do petróleo –, novas sinalizações de aumentos dos custos dos alimentos acendiam o sinal vermelho.

A dinâmica do comércio global de açúcar, com o mundo imerso na Guerra Fria, também preocupava. Cuba, que havia aderido ao bloco comunista, liderava o mundo em exportações —e abastecia a União Soviética.

Fonte: FAO.

Cuba também se destacava entre os maiores produtores mundiais, atrás da Índia e do Brasil. Após o colapso da União Soviética em 1991, a produção de açúcar no país começou a declinar, e hoje está reduzida a menos de 200 mil toneladas por ano.

Fonte: FAO.

Ao mesmo tempo, o consumo de açúcar crescia no mundo devido a fatores como o crescimento populacional e a rápida urbanização. Nos países desenvolvidos, a cultura do fast-food também se expandia, beneficiando a indústria de alimentos e bebidas.

Nos EUA, o consumo de açúcar bruto atingiu 12 milhões de toneladas anuais em meados da década de 1970. Nos últimos 50 anos, no entanto, a demanda permaneceu relativamente estável, apesar do crescimento econômico e populacional do país.

Fonte: USDA

Xarope de Milho Entra em Cena

Na década de 1970, a produção de HFCS, desenvolvido na década anterior nos EUA, dava seus primeiros passos. A promessa de preços atrativos, em grande parte devido aos subsídios oferecidos à produção de milho, atraiu a atenção da indústria. Mas a aprovação do FDA ainda estava pendente, sendo finalmente concedida em 1983.

No ano seguinte, fabricantes de bebidas e alimentos começaram a utilizar o ingrediente em larga escala. O consumo de HFCS expandiu-se rapidamente, passando de 5,38 milhões de toneladas em 1985 para 9 milhões de toneladas em 2000, um salto de quase 70%. O consumo de açúcar cresceu 27,5% no mesmo período, segundo o USDA.

Fonte: USDA.

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Carla Aranha

Carla joined CZ in 2022 having previously worked at Exame and Valor, leading economic media outlets in Brazil, where she developed projects and news coverage focusing on the agribusiness and commodities markets. Carla is responsible for writing content, providing interesting article´s subjects and reports as well as producing press releases together with the marketing team.

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