Pontos Principais
Em fevereiro, houve uma grande reviravolta nas tarifas dos EUA. A Suprema Corte derrubou as tarifas emergenciais do presidente Trump, o que levou à imposição de uma taxa de importação temporária de 10%, que deverá subir para 15%, aplicada a todos os parceiros comerciais e reequilibrando as vantagens comerciais. China, Brasil e Índia se beneficiarão com tarifas relativamente menores, enquanto aliados dos EUA, como a União Europeia e o Reino Unido, enfrentarão tarifas mais altas. O clima de inverno, o aumento dos custos dos fertilizantes e os novos acordos comerciais com a Coreia do Sul, o Brasil e a Indonésia aumentam ainda mais a pressão sobre os mercados agrícolas globais.
EUA Implementam Novas Tarifas Abrangentes
Este mês, houve mais caos tarifário após uma decisão da Suprema Corte dos EUA que derrubou as tarifas de emergência impostas pelo presidente Donald Trump sob a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional – IEEPA (em inglês, International Emergency Economic Powers Act).
A decisão obrigou o governo dos EUA a suspender a cobrança das tarifas invalidadas e a substituí-las por uma taxa de importação temporária e abrangente, sob a Seção 122 da Lei de Comércio de 1974 — atualmente de 10%, com planos de aumentá-la para 15%, que ainda não entraram em vigor. Ao contrário do regime anterior, que visava países específicos, a nova tarifa se aplica a todos os parceiros comerciais.
Isso comprime as diferenças anteriores, reduzindo as tarifas para alguns países, enquanto aumenta os custos para outros, e redistribui as vantagens comerciais relativas sem atenuar o protecionismo geral.

Obs.: Um valor positivo indica uma redução na tarifa total
Fonte: Financial Times
Quem se Beneficia?
China
Pequim criticou as tarifas unilaterais dos EUA e afirmou estar realizando uma “avaliação completa” da decisão, solicitando a Washington para remover o que considera medidas comerciais que violam as normas internacionais. Apesar dessa retórica, a China emerge como uma relativa beneficiária da redefinição: sob a estrutura anterior da IEEPA, enfrentava tarifas mais pesadas e direcionadas, e a alteração para uma taxa uniforme de 15% reduz essa diferença.
No comércio agrícola, o foco permanece na soja. O presidente Trump destacou recentemente possíveis compras adicionais por parte da China, além das aproximadamente 12 milhões de toneladas já adquiridas sob um acordo anterior, incluindo os volumes negociados pela estatal Sinograin. No entanto, a grande safra brasileira continua a pressionar os preços para baixo, e sem uma forte vantagem tarifária, analistas questionam o quanto Pequim estará disposta a se comprometer ainda mais.

Embora as tarifas permaneçam elevadas e novas investigações possam ocorrer, a adoção de uma taxa uniforme reduz a penalidade relativa que a China enfrentava anteriormente sob medidas específicas para cada país.
Brasil
Como um dos principais exportadores agrícolas, especialmente de soja, carne bovina e açúcar, o Brasil se beneficia tanto com um melhor posicionamento tarifário relativo quanto com qualquer desaceleração nos fluxos agrícolas entre os EUA e a China. Se os compradores chineses optarem ainda mais por produtos de origem sul-americana devido aos preços e à menor pressão política, o Brasil poderá consolidar uma participação de mercado adicional durante os períodos de pico dos embarques das safras.
Índia
A Índia também pode se beneficiar da alteração dos EUA para uma tarifa não discriminatória após a Suprema Corte ter derrubado as tarifas globais do presidente Trump. Um acordo comercial provisório firmado no início deste mês reduziu as tarifas dos EUA sobre as exportações indianas de 50% para 18%, abrangendo bens industriais e produtos alimentícios e agrícolas selecionados.
Com a nova tarifa fixa de 15%, os exportadores indianos enfrentam um ônus relativo menor do que os aliados de longa data dos EUA, cujas taxas preferenciais foram agora reduzidas. As negociações finais em Washington foram adiadas enquanto ambos os lados avaliam as implicações, mas o acordo posiciona a Índia para fortalecer sua competitividade nos mercados americanos.
Quem Perde?
Os aliados de longa data dos EUA parecem mais vulneráveis sob a nova estrutura.
União Europeia
O bloco havia negociado uma estrutura de 15% que incorporava isenções e exceções específicas para cada setor. Com a aplicação de uma tarifa fixa de 15% e a incerteza sobre como as isenções serão tratadas, o valor desse acordo negociado diminui. A Comissão Europeia solicitou “total clareza” sobre como o novo regime interage com os compromissos anteriores, e as etapas de ratificação foram suspensas no Parlamento Europeu.
Reino Unido
O Reino Unido encontra-se em uma posição particularmente delicada. Tendo garantido uma tarifa base de 10% para muitos produtos, os exportadores britânicos poderão agora observar um aumento das tarifas médias devido à nova tarifa global. Grupos empresariais estimam que mesmo um aumento de 5 pontos percentuais elevaria significativamente os custos de exportação, especialmente nos setores de alimentos e bebidas, produtos químicos, bens industriais e cadeias de abastecimento ligadas ao setor automotivo.
O primeiro-ministro Keir Starmer sinalizou um diálogo contínuo com Washington, mas permanece a incerteza sobre se os termos negociados serão respeitados ou anulados sob a exigência não discriminatória da Seção 122.
Agricultura Ainda Sob Pressão Devido às Tempestades de Inverno
As condições climáticas severas do inverno continuam a afetar as operações agrícolas e logísticas em diversos países. No nordeste dos EUA, caiu uma nevasca que deixou até 45 cm de neve desde a cidade de Nova York até a Nova Inglaterra, cancelando voos, fechando estradas e linhas férreas e atrasando embarques, incluindo de produtos agrícolas.
Enquanto isso, no sudeste dos EUA, as temperaturas congelantes na Flórida, no final de dezembro e janeiro causaram perdas agrícolas preliminares superiores a USD 3 bilhões, danificando cana-de-açúcar, frutas cítricas, vegetais e melões, enquanto a escassez de mão de obra e o armazenamento limitado atrasaram as colheitas e podem afetar a produtividade futura.
Do outro lado do Atlântico, o Reino Unido enfrentou ondas de frio e chuvas intensas, atrasando as colheitas, limitando o pastoreio precoce e restringindo a oferta de carne e produtos agrícolas na primavera, antes da Páscoa. Esses problemas devem aumentar os preços no campo e no varejo, com efeitos subsequentes nos setores de hotelaria e alimentação.
Fevereiro Traz Novas Parcerias Comerciais
O presidente sul-coreano Lee Jae Myung e o presidente brasileiro Luiz Inácio (Lula) da Silva concordaram em elevar sua relação bilateral a uma parceria estratégica, assinando 10 acordos que abrangem comércio, minerais estratégicos, tecnologia digital, incluindo inteligência artificial, agricultura, saúde, biotecnologia e intercâmbio de pequenas empresas. Os líderes adotaram um plano de ação de quatro anos que delineia a cooperação em defesa, espaço e segurança alimentar, e concordaram em retomar as negociações sobre o acordo comercial entre a Coreia do Sul e o Mercosul, suspenso desde 2018.
Essas medidas visam fortalecer os fluxos comerciais e a cooperação industrial, especialmente porque o Brasil continua sendo o maior parceiro comercial da Coreia do Sul na América do Sul, enquanto os mercados globais enfrentam a incerteza decorrente das alterações nas tarifas dos EUA.
Enquanto isso, os EUA e a Indonésia concordaram com um acordo comercial recíproco que elimina tarifas sobre mais de 99% das exportações agrícolas dos EUA, incluindo trigo, soja, laticínios, carne e alimentos processados. A Indonésia se comprometeu a aumentar as importações de trigo dos EUA para 2 milhões de toneladas, de soja para 3,5 milhões de toneladas e de farelo de soja para 3,8 milhões de toneladas, além de simplificar os requisitos de certificação, rotulagem e licenciamento para agilizar os fluxos comerciais.
O acordo também vincula algumas exportações têxteis da Indonésia isentas de impostos a insumos de algodão dos EUA e fortalece a cooperação na cadeia de suprimentos, embora os traders observem que cumprir os altos compromissos de compra, principalmente de farelo de soja, será um desafio para as agências estatais encarregadas das importações. Espera-se que o acordo aprofunde o engajamento agrícola entre os EUA e a Indonésia e sustente a segurança alimentar no Sudeste Asiático.
Volatilidade do Mercado de Fertilizantes se Intensifica
Os preços dos fertilizantes subiram 2,4% no início de 2026, revertendo a estabilização observada no final de 2025. O aumento é atribuído aos maiores custos do gás natural, às taxas do CBAM (Mecanismo de Ajuste de Carbono nas Fronteiras) da UE e às tensões geopolíticas que afetam Bielorrússia, Rússia e Irã. Isso ameaça os custos globais de produção agrícola e a inflação de alimentos.
Analistas alertam que os preços dos fertilizantes continuam sendo a principal ameaça à rentabilidade agrícola em 2026, com o uso de fosfato na América do Norte caindo 20% no outono de 2025 e incerteza quanto à demanda na primavera. Apesar das reduções, a área de plantio do milho nos EUA (93–95 milhões de acres) mantém a demanda alta — especialmente por nitrogênio.

A demanda global por amônia continua a crescer, impulsionada em 70–80% pelo consumo de fertilizantes, com a China, a Índia e os EUA liderando o consumo e com a entrada em operação de novas capacidades significativas.
Em Outras Notícias:
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Costa do Marfim Considera Redução no Preço do Cacau: A Costa do Marfim está considerando reduzir os preços pagos aos produtores de cacau, seguindo o corte de 30% feito por Gana, já que os estoques não vendidos da principal safra do país ameaçam chegar a 200.000 toneladas até o final de março. As autoridades planejam anunciar os preços da safra intermediária até o final de fevereiro para destravar as vendas, pagar os produtores e aliviar o acúmulo de estoques, que, juntamente com Gana, representam aproximadamente metade da produção mundial de cacau.
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Negociações EUA–Irã Impulsionam Preços do Petróleo: O petróleo atingiu o maior valor em sete meses, antes das negociações de quinta-feira em Genebra entre os EUA e o Irã, com as tensões sobre os programas nucleares e de mísseis alimentando preocupações com a oferta. O petróleo Brent atingiu USD 71,10 e o petróleo WTI, USD 65,84, enquanto as discussões sobre armas entre Irã e China e o aumento dos estoques de petróleo bruto dos EUA adicionaram ainda mais incerteza ao mercado.
