Pontos Principais

  • Agritechs captaram US$ 1,3 bilhão de investimento no Brasil em 2022.
  • No mundo, aportes no setor aumentaram 866% nos últimos dez anos.
  • Maior demanda por alimentos e aumento da produtividade no campo são alguns dos motivos da expansão das startups do agro.

Se há algo que vai bem no Brasil é o ecossistema das agritechs. No ano passado, as startups do agro brasileiras captaram US$ 1,3 bilhão, à frente de países como Israel (US$ 1,2 bilhão) e França (US$ 1,1 bilhão). O número de agritechs também segue em expansão: hoje, são mais de 1.700, 10% a mais do que em 2021, de acordo com dados da Embrapa e SP Ventures. Mesmo assim, é um universo mais tímido do que de fintechs e startups de outros segmentos, como saúde e educação, já mais consolidadas.

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Fonte: Embrapa e SP Ventures

O volume de investimentos começou a aumentar nos últimos anos, diante de novos desafios que vão de questões relacionadas à segurança alimentar, mudanças climáticas, sustentabilidade e geopolítica. O aumento da produtividade do agronegócio brasileiro, que deve crescer cerca de 10% neste ano, também vem impactando positivamente o setor.

Não é de se estranhar que negócios focados na agricultura de precisão, que oferece ferramentas para o aumento da produtividade e a gestão de riscos, ocupem o primeiro lugar no ranking de atração de recursos, com 35,2% dos investimentos, segundo dados do Distrito, plataforma de inovação, seguida por startups de robotização (14,2%) e biotecnologia (14,2%).

Globalmente, os aportes em agritechs atingiram o pico em 2021, quando somaram US$ 53,2 bilhões. O boom de preocupações com segurança alimentar e o impacto da agricultura no meio ambiente foram um dos motores das rodadas de investimento em startups que desenvolveram de fertilizantes biológicos a fazendas verticais e carnes plant-based, à base de vegetais.

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Fonte: AgFunder.

No ano passado, a volatilidade do mercado de private equity e o cenário econômico global mais desafiador, com sucessivos aumentos nas taxas de juros, reduziram os investimentos em agritechs. A limitação dos aportes fez com que as captações das startups do agro caíssem 44% em 2022, passando a cerca de US$ 29,6 bilhões, segundo a AgFunder, fundo de investimento americano focado em agritechs.

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Fonte: AgFunder

No mundo, esses desafios continuaram se impondo no primeiro trimestre do ano, como mostra um estudo do PitchBook, empresa americana de análise de mercado especializada em venture capital e private equity. O volume de investimentos caiu 39% comparado ao trimestre anterior, aponta a companhia. A desaceleração econômica global e a crise bancária nos Estados Unidos e na Europa explicam boa parte da queda dos aportes, segundo a companhia.

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Fonte: PitchBook. *Até março/23

Mesmo assim, negócios importantes continuaram a ser fechados. No total, US$ 1,9 bilhão foram investidos, por meio de fundos de venture capital, em 172 agritechs ao redor do mundo. A eFishery, startup de novas tecnologias para aquicultura da Indonésia, captou US$ 150 milhões, enquanto a Halter, da Nova Zelândia, recebeu US$ 85 milhões para aprimorar sensores e equipamentos para vacas, baseados em inteligência artificial – os aparelhos são usados para monitorar parâmetros como a temperatura, batimentos cardíacos e fertilidade dos animais.

Ao mesmo tempo, startups de soluções de robótica, irrigação e financiamento permanecem em alta. No Brasil, a Solinftec captou R$ 100 milhões este ano para turbinar tecnologias de monitoramento de safra, com foco na cana-de-açúcar – a empresa criou robôs que matam insetos e analisam o solo para identificar a necessidade de uso de adubos ou defensivos.

Esse tipo de ferramenta, que integra o conjunto de soluções da agricultura de precisão, pode gerar economia para o produtor rural, entre outros benefícios. Por exemplo, uma usina de cana-de-açúcar normalmente utilizaria 300 quilos de fertilizante por hectare – com uma análise melhor do solo, é possível reduzir esse custo em cerca de R$ 300 por hectare.

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Plantação de cana: novas tecnologias para redução de custo e aumento de produtividade. Foto divulgação.

Há espaço também para negócios nascentes. A DioxD, fundada em 2018, recebeu mais de R$ 1,4 milhão de fundos como GR8 Ventures e da aceleradora AgroVen. Os recursos vão ser destinados ao ganho de escala e ao aprimoramento de uma tecnologia baseada na aplicação de CO2 em sacos de sementes de soja para acelerar a germinação da planta.

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Na visão do Agtech Garage, um dos maiores hubs de inovação do agro na América Latina, a tendência é que soluções voltadas à otimização da produção continuem ganhando espaço, assim como o uso de novas tecnologias para monitorar a lavoura.

“Além de gerar economia de tempo e permitir que a força de trabalho seja alocada em outras atividades mais estratégicas, os avanços tecnológicos permitem maior precisão e inteligência na tomada de decisão”, avalia José Tomé, CEO do AgTech Garage e sócio da PwC Brasil.

De modo geral, o cenário para investimentos em startups do agro neste ano é um pouco mais otimista do que em 2022. A consultoria britânica Oghma Partners, especializada em aquisições e investimentos no setor de alimentos e bebidas, aponta que as dificuldades mais impactantes do ano passado aos poucos devem ficar para trás, embora ainda haja desafios para apostas em novas empresas em meio a um ambiente de negócios volátil.

“Parte do aumento de custos e do ambiente de financiamento mais complexo observado em 2022 deve diminuir neste ano. Esperamos encontrar investidores dispostos a níveis de avaliação atraentes das agritechs”, diz Mark Lynch, sócio da consultoria britânica Oghma Partners.

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Fonte: Banco Central, Banco Mundial e FED St. Louis

Carla Aranha

Carla joined CZ in 2022 having previously worked at Exame and Valor, leading economic media outlets in Brazil, where she developed projects and news coverage focusing on the agribusiness and commodities markets. Carla is responsible for writing content, providing interesting article´s subjects and reports as well as producing press releases together with the marketing team.

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