Pontos Principais

As compras de soja por parte da China são mais complexas do que se supõe. Empresas estatais realizam as aquisições da soja dos EUA para cumprir compromissos políticos, enquanto empresas privadas e multinacionais de processamento continuam adquirindo a soja principalmente do Brasil. Embora a meta de 12 milhões de toneladas esteja prestes a ser atingida, o cumprimento do compromisso de 25 milhões de toneladas é incerto devido às limitações de armazenamento, à dependência de incentivos ao setor privado e à falta de clareza nos critérios de métrica.

Compradores Estatais se Voltam para os EUA; Compradores Privados, para o Brasil

A China mantém a implementação de suas políticas de importação sob sigilo, mas há indícios de que as empresas estatais Sinograin e COFCO estão cumprindo os compromissos de compra da China da soja dos EUA, enquanto multinacionais e empresas privadas estão comprando do Brasil.

O primeiro indício surgiu em dezembro de 2025, quando a Sinograin realizou leilões para vender soja importada que estava armazenada em seus depósitos desde 2022–23. Segundo notícias do mercado chinês, os leilões visavam liberar espaço para armazenar a soja dos EUA que estava sendo adquirida para cumprir o compromisso de compra de outubro de 2025.

Outro indício se encontra nos dados alfandegários chineses, que indicam que empresas estatais são as únicas compradoras da soja dos EUA em 2026. Todas as 8,38 milhões de toneladas da soja dos EUA importadas neste ano foram adquiridas por empresas registradas em Pequim. A COFCO e a Sinograin são as únicas empresas sediadas em Pequim que poderiam ter importado esse volume de soja. O padrão deste ano difere do ano passado, quando não houve monopólio por parte de Pequim. Entre janeiro e maio de 2025, empresas de Pequim importaram 4,67 milhões de toneladas da soja dos EUA, enquanto empresas registradas em 20 províncias chinesas importaram 9,9 milhões de toneladas dos EUA.

Enquanto isso, empresas sediadas em Pequim não têm importado soja brasileira neste ano. As importações chinesas de 22,68 milhões de toneladas da soja brasileira entre janeiro e maio de 2026 foram realizadas por empresas distribuídas por 23 províncias — um padrão que corresponde à localização das unidades de processamento concentradas ao longo da costa leste da China e das redes de transporte internas que facilitam o acesso aos grãos importados.

Em resumo, os dados da alfândega chinesa indicam uma bifurcação nas importações de soja decorrente do acordo de compra. Empresas estatais estão cumprindo o acordo de aquisição da soja dos EUA, enquanto multinacionais e empresas privadas estão comprando soja brasileira. A dispersão de importadores além de Pequim provavelmente também inclui unidades de processamento da COFCO — orientadas comercialmente — registradas como subsidiárias independentes nas províncias onde operam.

Empresas Sediadas em Pequim Monopolizaram as Importações da Soja dos EUA em 2026

 

Fonte: China Customs

Quem é a “China” na Compra de Soja?

Os rumores de que a “China” estava prestes a comprar soja se confirmaram em 17 de junho, quando o USDA anunciou as primeiras vendas da nova safra, de 132 mil toneladas para a China. As especulações sobre as compras da “China” voltam a ganhar força à medida que o mercado analisa o compromisso de compra anual de 25 milhões de toneladas para 2026. Mas quem é a “China” quando se trata da compra de soja?

 

De fato, as empresas estatais vinculadas ao governo desempenham um papel de grande peso no mercado de soja da China, respondendo por 35–40% das importações. No entanto, mais de 60% do mercado é composto por quatro multinacionais voltadas à maximização de lucros e por meia dúzia de grandes empresas privadas chinesas que disputam maiores participações em um mercado extremamente competitivo.

O conglomerado estatal do setor alimentício China National Cereals, Oils and Foodstuffs Corporation (COFCO) e a empresa responsável pelas reservas estratégicas China Grain Reserves Group (Sinograin) são as entidades que mais se aproximam do que os analistas de mercado têm em mente quando pensam na “China”. Planejadores chineses arquitetaram a expansão da COFCO para torná-la a maior processadora de soja da China ao longo dos últimos 15 anos, enquanto a Sinograin ocupa a terceira posição. Ambas as empresas possuem unidades de processamento e vendem óleo de cozinha de suas próprias marcas em supermercados. A COFCO também é responsável pela execução das políticas nacionais de importação de alimentos, enquanto a Sinograin gerencia o armazenamento e a liberação de reservas de soja, grãos e óleos comestíveis.

O governo chinês não controla diretamente empresas multinacionais e privadas, mas autoridades às vezes emitem instruções por canais informais. Essas empresas frequentemente demonstram apoio a planos e iniciativas do governo para manter boas relações com reguladores que podem beneficiar ou prejudicar seus negócios.

Quatro empresas conhecidas como “ABCD” — ADM, Bunge, Cargill e Louis Dreyfus — foram durante muito tempo alvo de críticas na China por dominarem o setor de processamento de soja, até que a expansão da COFCO e da Sinograin diluiu essa dominância. A gigante do agronegócio Wilmar International, sediada em Singapura — e parcialmente detida pela ADM —, ocupa agora a segunda posição no processamento de soja. A Wilmar liderava o mercado até ser ultrapassada pela COFCO. As empresas privadas Bohi e Hopefully também aparecem entre as principais processadoras, declarando, cada uma, uma capacidade anual de processamento de 10 milhões de toneladas distribuída por diversas unidades. Muitas empresas, como Zhonghai (China Sea) Grain and Oils Group, foram criadas a partir da privatização de órgãos municipais de abastecimento de alimentos.

Compromissos de Compra Enfrentam Restrições Estruturais

As empresas estatais parecem ter cumprido o compromisso assumido em outubro de comprar 12 milhões de toneladas da soja dos EUA. As primeiras vendas de exportação para a China referentes ao ano comercial 2025/26 foram divulgadas pelo USDA na semana anterior ao anúncio, pela Casa Branca, do acordo de compra da China. O volume de vendas subiu para 6,4 milhões de toneladas até o final de dezembro de 2025, atingiu 11 milhões de toneladas em março de 2026 e se aproximou da meta de 12 milhões de toneladas em junho.

Os embarques efetivos de soja, monitorados pelas inspeções de exportação do USDA, atingiram 6,4 milhões de toneladas em meados de fevereiro de 2026, chegaram a 11 milhões de toneladas em meados de maio e se situaram em 11,75 milhões de toneladas em meados de junho.

As compras por parte da China atingiram 8 milhões de toneladas no início de janeiro de 2026, mas as chegadas ao país só alcançaram esse volume quatro meses depois, em maio. Se esse ritmo se mantiver, a totalidade das 12 milhões de toneladas da soja dos EUA terá chegado à China até agosto de 2026 — pouco antes do início do novo ano comercial norte-americano.

Fontes: USDA, China Customs

A atenção do mercado agora se voltou para o compromisso da China de comprar 25 milhões de toneladas da soja dos EUA em 2026. Alguns analistas de mercado apontam o cumprimento do compromisso de 12 milhões de toneladas como um indício de que a China honrará o novo compromisso de compra. Outros se mostram céticos, ressaltando a ausência de um acordo por escrito e o fato da China não ter cumprido as metas de compra estabelecidas na Fase Um do acordo de 2020.

Não está claro se as empresas estatais conseguirão armazenar mais 25 milhões de toneladas da soja dos EUA para cumprir o compromisso. Dados dos leilões de dezembro passado — realizados para liberar espaço para a nova safra da soja dos EUA — mostram que foram vendidas apenas 2 milhões de toneladas, um volume muito inferior às compras deste ano.

As autoridades chinesas não dispõem de mecanismos para obrigar multinacionais e empresas privadas a comprar soja dos EUA. Tornar a compra da soja dos EUA lucrativa para essas empresas será fundamental para cumprir o compromisso de 25 milhões de toneladas. A redução, ao longo de junho, do prêmio do preço da soja dos EUA em relação à brasileira provavelmente contribuiu para a primeira venda de soja de 2026/27. A remoção da tarifa de 10% aplicada pela China aos produtos dos EUA também será necessária para incentivar as compras pelo setor privado.

Fonte: International Grains Council

A possibilidade de confusão surgiu nesta semana. Um artigo em um site do setor de rações da China comentou que as 8,38 milhões de toneladas da soja importada dos EUA  — conforme registrado nos dados alfandegários chineses para 2026 — já cumpriram parte do compromisso de compra de 25 milhões de toneladas para 2026.

Analistas de mercado dos EUA vêm acompanhando as vendas de exportação do USDA para a China a fim de monitorar o progresso, e considerariam as 8,38 milhões de toneladas como um cumprimento parcial do compromisso para 2025. Isso evidencia a ausência de um acordo por escrito e a falta de especificação sobre se o compromisso abrange anos civis ou anos comerciais, assim como sobre a métrica utilizada para acompanhar o progresso.

A middle-aged man with glasses and a short beard looks at the camera, standing in front of a bookshelf filled with colorful books.

Fred Gale

Fred Gale is an independent agricultural economist specializing in China. He holds a PhD in Economics and published dozens of reports and articles on China’s agricultural markets, trade, and policies during 36 years as a research economist in USDA’s Economic Research Service. Since retiring he continues writing his “Dim Sums” blog, long recognized as an authoritative source of information and analysis of Chinese agricultural markets and policies.
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