Pontos Principais
O Brasil e outros países estão desenvolvendo produtos inovadores a partir de resíduos da cana-de-açúcar. Os exemplos vão de embalagens de celulares e couro vegetal a outros materiais feitos a partir de bagaço e palha. Esses produtos demonstram como os resíduos agrícolas podem se tornar soluções valiosas e ecologicamente corretas.
Cana-de-Açúcar Alimenta o Sistema Elétrico
Resíduos da cana-de-açúcar já são usados há algum tempo para gerar energia. No Brasil, a biomassa — produzida principalmente a partir do resíduo da cana — é atualmente um componente essencial da rede elétrica.
Fonte: EPE
Mais recentemente, centros de pesquisa e empresas descobriram que o bagaço e a palha da cana-de-açúcar podem ser usados para finalidades que vão de plásticos sustentáveis a tijolos e até couro vegetal.
Palha da Cana Pode Substituir Plástico
Pesquisadores da Embrapa descobriram que a palha da cana-de-açúcar — considerado um resíduo ainda pouco explorado — pode dar origem a nanocristais de celulose biodegradáveis e de alta resistência. Outra vantagem importante é seu alto rendimento.
Embalagens de alimentos feitas de bagaço.
Além de substituir plásticos convencionais, o material pode ser usado na fabricação de produtos como embalagens e adesivos. “Os derivados da cana de açúcar apresentam características físicas e químicas que podem oferecer maior estabilidade e compatibilidade com elementos resistentes à água, o que é bastante positivo”, explica a pesquisadora Cristiane Sanchez Farinas, coordenadora da pesquisa.
Cristiane Sanches, Embrapa.
Índia Produz Couro a Partir do Bagaço
Na Índia, o National Institute for Interdisciplinary Science and Technology fez parceiras com empresas para produzir couro vegetal a partir do bagaço de cana. O material já recebeu certificações de sustentabilidade e está sendo comercializado.
O processo de fabricação envolve algumas etapas. Primeiro, o bagaço é triturado e as fibras mais rígidas são removidas. Em seguida, é formada uma polpa com alta concentração de celulose. Depois, são adicionados produtos, como ácidos orgânicos, para tornar as fibras mais maleáveis.
Em uma terceira etapa, o material é filtrado para eliminar resíduos sólidos. A celulose refinada, que pode ser tingida, forma então a base do couro vegetal. Também pode ser aplicada uma camada protetora de cera de carnaúba ou resina vegetal.
Cientistas Desenvolvem Embalagem Antiestática
Cientistas do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) desenvolveram uma embalagem antiestática — capaz de proteger componentes eletrônicos ao repelir descargas elétricas — a partir do bagaço da cana de açúcar. A inovação já foi patenteada.
O centro de pesquisa pretende fechar parcerias com fabricantes que possam produzir a embalagem em escala comercial.
“A intenção é oferecer uma alternativa sustentável à indústria de embalagens de produtos eletrônicos sensíveis, substituindo materiais plásticos por opções menos poluentes e de alto desempenho”, diz Juliana Bernardes, coordenadora da pesquisa.
O material pode ser utilizado para embalar celulares, computadores e uma série de outros produtos eletroeletrônicos, segundo o CNPEM.
Universidade do Reino Unido Produz Tijolos a Partir do Bagaço
Um dos compostos mais antigos feitos de fibras de cana-de-açúcar voltou à ordem do dia. Inicialmente utilizado na construção de moradias populares na década de 1940, o material — originalmente formado por placas de fibra de cana-de-açúcar revestidas com amianto — recebeu uma nova formulação.
No lugar do amianto, entraram ligas minerais, tornando o material mais sustentável. A técnica foi desenvolvida pela University of East London, do Reino Unido, em parceria com arquitetos.
O produto já está sendo utilizado comercialmente. Na Índia, a primeira escola construída com tijolos e blocos de concreto feitos com bagaço foi inaugurada neste ano. O material também deve chegar a países de continentes como a América Latina e a África.
Oportunidade de Negócios
Embora o desafio do ganho de escala ainda não tenha sido vencido, novas tecnologias podem abrir novas oportunidades de negócios para os produtores de cana-de-açúcar a médio e longo prazo.
As pressões regulatórias globais para reduzir o uso de derivados de petróleo e a busca por materiais com baixo impacto ambiental estão começando a impulsionar aos poucos a demanda por produtos feitos de fibras vegetais.
Além disso, nichos de mercado de alto valor agregado, como embalagens premium e moda sustentável, já estão atraindo consumidores com maior poder aquisitivo. No contexto de uma demanda crescente por produtos sustentáveis, a produção em larga escala de materiais feitos de fibras vegetais pode não estar tão distante.