Pontos Principais

Uma decisão judicial recente considerou ilegais as tarifas recíprocas do presidente Donald Trump. O acordo comercial proposto entre a UE e os EUA concede aos agricultores dos EUA acesso isento de tarifas a produtos agrícolas essenciais, em meio a mudanças nos fluxos comerciais de soja e milho. O mau tempo tem prejudicado as colheitas em todo o mundo, enquanto as taxas globais de frete caíram para o menor nível em dois anos.

Tribunal Derruba Tarifas do Presidente Trump

Um tribunal federal de apelações dos EUA derrubou as “tarifas recíprocas” do presidente Donald Trump, determinando que foram impostas ilegalmente. A decisão contesta o uso de poderes de emergência por Trump para justificar as tarifas, que foram reintroduzidas em 7 de agosto após uma implementação anterior fracassada em abril.

Trump anunciou as tarifas pela primeira vez em 2 de abril de 2025, aplicando uma tarifa base de 10% sobre a maioria das importações e tarifas mais elevadas sobre setores e países selecionados. As medidas foram suspensas apenas uma semana depois, após uma forte reação dos mercados de ações globais. Após meses de negociações paralisadas com parceiros comerciais, uma versão revisada das tarifas foi revelada em agosto – apenas para ser derrubada pelo Tribunal de Apelações em 26 de agosto.

Trump tem agora até 14 de outubro para recorrer da decisão à Suprema Corte dos EUA. Se a Corte se recusar a ouvir o caso ou mantiver a decisão da instância inferior, as tarifas serão removidas. Outras medidas – como as tarifas da Seção 232 sobre aço, alumínio e cobre e as tarifas da Seção 301 sobre as importações chinesas – permanecem inalteradas.

Embora Trump afirme que as tarifas são necessárias, os críticos alertam que elas já afetaram os exportadores dos EUA ao prejudicar as relações com importantes parceiros comerciais. Uma decisão final da Suprema Corte também pode levantar questões sobre a receita arrecadada com as tarifas e a credibilidade das negociações comerciais dos EUA conduzidas sob pressão tarifária.

Cotas Tarifárias Propostas Abrem UE à Agricultura dos EUA

Embora o futuro das tarifas recíprocas do Presidente Trump agora dependa da Suprema Corte dos EUA, Washington e Bruxelas avançaram com um novo acordo comercial firmado em 21 de agosto. A Comissão Europeia começou a implementar o acordo, embora a aprovação final do Parlamento Europeu e do Conselho ainda seja necessária.

O pacote comercial UE-EUA reduz as tarifas dos EUA sobre automóveis e os impostos da UE sobre produtos industriais americanos. A agricultura também é um foco importante, com cotas tarifárias de 0% propostas para carne de porco, laticínios, queijos e soja dos EUA, além de tarifas reduzidas sobre certas frutas, vegetais e sucos. Essas mudanças proporcionam aos agricultores dos EUA melhor acesso ao mercado da UE.

O acordo gerou críticas no Parlamento Europeu, onde alguns legisladores o consideram “desequilibrado” e desproporcionalmente benéfico para os EUA. As preocupações incluem o cumprimento das regras da OMC – que normalmente exigem a extensão mais ampla dos termos preferenciais – e o fato das tarifas sobre as exportações de aço e alumínio da UE permanecerem inalteradas, em até 50%. O Parlamento começará a debater o pacote no início de setembro, com uma segunda proposta legislativa sobre o acordo mais amplo ainda pendente.

Argentina e Uruguai Atendem à Demanda de Soja da China

Em nossa última atualização comercial, informamos que as exportações de soja dos EUA estavam perdendo terreno para o Brasil, com a China se voltando para o fornecimento brasileiro para a janela Setembro-Outubro, em meio às tensões comerciais em andamento.

Novas notícias da Reuters indicam que essa tendência está se expandindo, já que os compradores chineses também estão aumentando as compras da Argentina e do Uruguai para o ano comercial de 2025/26. Analistas sugerem que as importações desses dois países podem chegar a 10 milhões de toneladas – potencialmente um recorde – com cerca de 2,4 milhões de toneladas já reservadas para embarques entre setembro e maio.

Fonte: USDA

Isso se baseia nas importações realizadas pela China da Argentina e do Uruguai, que totalizaram cinco milhões de toneladas de setembro de 2024 a julho de 2025. Combinado com as compras contínuas do Brasil, que forneceu 22% das importações agrícolas da China no ano passado, a mudança reduz ainda mais a participação de mercado dos EUA, agora projetada em apenas 12%.

Os traders citam fatores políticos e de oferta. As tarifas dos EUA que estão em vigor tornam a soja americana menos competitiva, enquanto as safras recordes na Argentina (50,9 milhões de toneladas) e no Uruguai (4,2 milhões de toneladas) garantem ampla oferta.

Para os agricultores dos EUA, estes desenvolvimentos ressaltam o impacto contínuo das tensões comerciais, já que os concorrentes latino-americanos atendem cada vez mais a demanda de soja da China.

Condições Climáticas Extremas Reduzem Colheitas em Toda a Europa e Além

Em uma notícia recente, o The Guardian alertou que o “climateflation” – aumento dos preços dos alimentos causado por condições climáticas extremas – está se tornando uma força persistente nos mercados globais.

Nos últimos meses, a seca prolongada no Reino Unido reduziu a produção de cereais e batatas em cerca de 50% e reduziu o uso de grama para pastagem em até 80%. Enquanto isso, nos Bálcãs e no Oriente Médio, a seca está afetando as colheitas de trigo e vegetais e forçando o racionamento de água em partes da Turquia. Nos últimos anos, a África Ocidental e a Índia também enfrentaram repetidas ondas de calor, aumentando ainda mais a pressão sobre o fornecimento de cacau e cebola.

O milho também foi afetado na Europa. A colheita de 2025 caiu para 58 milhões de toneladas, 7% abaixo da média de cinco anos, com a seca e as ondas de calor reduzindo a produtividade na Hungria, Romênia e sul da Itália. A área colhida caiu 9% em relação ao ano anterior, com os preços atingindo o maior nível em 12 meses. Analistas esperam que os custos da ração animal aumentem de 10% a 15% até o quarto trimestre, especialmente nos estados do sul da UE, que estão fortemente expostos a valores mais altos das rações.

Fonte: USDA

O déficit causado pelo clima também expõe a fragilidade da cadeia de suprimentos. Os países do sul da UE, que dependem fortemente do milho para ração de aves e vacas leiteiras, têm recorrido cada vez mais à Ucrânia para cobrir suas lacunas. A Espanha, por exemplo, obteve 67% de suas importações de milho da Ucrânia em 2024, em comparação com 51% em 2021.

Vietnã Aumenta Demanda por Milho e Etanol dos EUA

Enquanto a seca e as ondas de calor limitam a produção europeia, as exportações de milho dos EUA estão encontrando novas oportunidades na Ásia.

O Vietnã planeja adotar totalmente o uso de gasolina misturada com etanol (E10) no próximo ano, uma medida que deverá aumentar a demanda por etanol e milho dos EUA – como matéria-prima. O combustível E10 – mistura de gasolina com até 10% de bioetanol – substituiria os padrões atuais RON92 e RON95, apoiando as metas de zero emissões líquidas e de redução de carbono do Vietnã.

Com seis usinas domésticas de etanol atendendo atualmente cerca de 40% da demanda projetada e tarifas sobre o etanol reduzidas de 10% para 5%, a mudança de política abre caminho para o aumento de embarques dos EUA. Para agricultores e produtores de etanol dos EUA, isso representa uma oportunidade de exportação favorável, à medida que o Vietnã moderniza sua infraestrutura de combustível e expande a demanda por matérias-primas para biocombustíveis.

Taxas Globais de Frete de Contêineres Caíram para o Menor Nível em Dois Anos

As taxas globais de frete de contêineres caíram para os menores níveis em quase dois anos, refletindo a contínua redução nos custos de transporte após a volatilidade do início de 2025. O aumento inicial, impulsionado pelas tarifas dos EUA e pelo carregamento antecipado de cargas, deu lugar a uma queda sustentada. O Ocean Freight Tracker (Rastreador de Frete Marítimo) do 3º Trimestre da Transport Intelligence relata que o índice de transporte de carga atingiu 131,8 em agosto, uma queda acentuada em relação a maio e ao ano passado.

Fonte: Ti Ocean Freight Tracker

O Índice Mundial de Contêineres da Drewry também destaca a queda, marcando a 11ª semana consecutiva de queda nas taxas nas principais rotas comerciais. As taxas transpacíficas caíram de 3% a 5% em Xangai-Los Angeles e Xangai-Nova York, enquanto as taxas Ásia-Europa caíram de 5% a 10% em rotas como Xangai-Rotterdam e Xangai-Gênova.

Fonte: Drewry

A queda é impulsionada pelo excesso de capacidade e pela demanda global mais fraca. As transportadoras responderam com blank sailings* e ajustes de serviço, que estabilizaram as taxas apenas temporariamente.

*Blank sailings – termo utilizado no transporte marítimo que se refere ao cancelamento de uma viagem previamente programada de um navio ou à omissão de sua escala em um determinado porto

Olhando à frente, a Drewry prevê que o equilíbrio entre oferta e demanda se enfraqueça ainda mais no segundo semestre de 2025, o que continuará a exercer pressão descendente nas taxas spot. O momento e a magnitude das mudanças permanecem incertos, dependendo de futuras tarifas dos EUA e de mudanças na capacidade relacionadas a sanções para navios chineses.

Lucas Blaxall

Lucas joined CZ in August 2024 after graduating from Queen Mary University of London. As an intern on the analyst team, he contributes to managing and editing content across CZ's digital platforms.
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