Pontos Principais

Mais uma vez, os anúncios de políticas dos EUA são a maior notícia para o fornecimento global de alimentos. A ameaça de impor uma tarifa de 50% sobre as importações brasileiras e de até 40% sobre outras origens é particularmente ruim para o café e o suco de laranja. Enquanto isso, as condições climáticas extremas continuam a impactar a produção de alimentos de forma global. 

Novos Anúncios do Presidente Trump Confundem o Mercado

Uma série de anúncios de políticas do presidente Trump causou confusão no mercado global de commodities alimentares. 

Na semana passada, diversos veículos de comunicação noticiaram que o presidente enviou uma carta ao seu homólogo brasileiro, Luiz Inácio da Silva (Lula), ameaçando impor tarifas de 50% contra o gigante agrícola sul-americano a partir de 1º de agosto. A carta foi uma resposta de Trump de sua insatisfação com o processo contra o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro, que aguarda julgamento sob a acusação de planejar um golpe em 2023. Bolsonaro nega as acusações e o presidente Trump as rotulou como uma “caça às bruxas”. 

A principal exportação do Brasil para os EUA em termos de valor é o petróleo bruto, segundo dados da Comex. No entanto, os dados mostram que, em 2024, o Brasil exportou USD 1,9 bilhão em café, USD 1,19 bilhão em sucos de frutas e USD 885 milhões em carne congelada para os EUA. 

Fonte: Comex

O Brasil tem um déficit comercial com os EUA desde 2007, comprando cerca de USD 3,2 bilhões a mais do que vende em 2025, segundo dados do US Census Bureau. 

Fonte: US Census Bureau

Até o momento, cinco países (Japão, Filipinas, Indonésia, Vietnã e Reino Unido) anunciaram acordos com os EUA. Outros 22 países receberam cartas do presidente desde 7 de julho, ameaçando impor tarifas de até 40%. 

Café e Suco de Laranja: Surge a Incerteza

Se as tarifas de 50% contra o Brasil entrarem em vigor, poucos setores agrícolas serão mais afetados do que o café e o suco de laranja. Os comerciantes já estão correndo para desembarcar café brasileiro nos EUA antes que as tarifas entrem em vigor. Os preços do café subiram acentuadamente no ano passado devido a problemas de produção, mas começaram a cair ligeiramente em 2025.

No entanto, com o Brasil produzindo um terço do café consumido nos EUA, o preço deve subir de forma acentuada novamente para os consumidores dos EUA.

Fonte: US Bureau of Labor Statistics

Da mesma forma, os EUA estão altamente expostos às importações brasileiras de suco de laranja. Dois dos maiores produtores mundiais de laranja são os EUA e o Brasil, mas os EUA enfrentaram diversos eventos climáticos adversos na Flórida – importante estado produtor – nos últimos anos, causando queda na produtividade. 

Isso fez com que os preços do suco de laranja concentrado congelado (FCOJ – em inglês, frozen concentrated orange juice) subissem de forma global. Para os consumidores dos EUA, tarifas adicionais provavelmente elevarão ainda mais os preços.

Fonte: US Bureau of Labor Statistics

Um importador de suco de laranja dos EUA – Johanna Foods – abriu um processo contra o governo Trump sobre as tarifas, alegando que isso causaria um impacto adverso de USD 70 milhões em seus negócios e aumentaria os preços ao consumidor. 

De acordo com o Wall Street Journal, os economistas agora esperam que o IPC de 12 meses fique em 2,7% – acima das estimativas anteriores de 2,4%. 

Para um setor, no entanto, um dos anúncios mais recentes do presidente Trump proporcionou apoio. Em uma mensagem publicada em sua conta no Truth Social, o presidente disse que pressionaria a Coca-Cola a voltar a usar açúcar de cana DE VERDADE, em vez de xarope de milho rico em frutose. 

Posteriormente, na divulgação dos resultados do segundo trimestre, a empresa confirmou os planos de lançar uma versão da popular bebida feita com açúcar de cana, mas enquadrou-a como uma “adição” ao seu portfólio. 

EUA e as Negociações Comerciais com o México e o Canadá

Os EUA também enfrentam tensões comerciais crescentes mais perto de casa, com o México e o Canadá – os seus dois maiores parceiros agrícolas – onde disputas não resolvidas ameaçam interromper cadeias de fornecimento e mercados vitais. 

Apesar da luta dos negociadores mexicanos para preservar o Acordo de Suspensão do Tomate, vigente há muito tempo, o governo Trump retirou-se do acordo em 14 de julho, argumentando que ele não protegia os produtores dos EUA de importações com preços injustos. O acordo permitiu que os tomates do México entrassem nos EUA isentos de impostos, sob rigorosos controles de preço e qualidade. 

Os tomates mexicanos agora enfrentam tarifas entre 17% e 21%, colocando em risco uma cadeia de fornecimento que sustenta mais de 30.000 empregos no Texas e gera mais de USD 2 bilhões anualmente no comércio.

As negociações mais amplas entre os EUA e o México estagnaram em relação à política energética, às normas trabalhistas e às regulamentações agrícolas. Embora as disputas sobre a proibição do milho geneticamente modificado e a fiscalização trabalhista continuem sendo os principais obstáculos, o governo dos EUA parece ter perdido a paciência, e o México foi um dos destinatários de uma carta do presidente em 12 de julho, impondo ao país uma tarifa de 30%. Entende-se que isso se aplica a produtos que não estão sujeitos ao acordo comercial USMCA (Acordo EUA-México-Canadá). 

O Canadá recebeu um nível mais rigoroso de 35%, e a possibilidade de um acordo comercial entre os países norte-americanos parece ainda mais improvável. Na cúpula do G7, em meados de junho, o premiê canadense Mark Carney afirmou que assinaria apenas um acordo “que fosse do melhor interesse do Canadá“. Ele não descartou a possibilidade de contratarifas. 

Trump concentrou-se especificamente no setor de laticínios, ovos e aves (fortemente controlado), do Canadá, que restringiu a produção e limitou as importações através de tarifas elevadas desde a década de 1970. O presidente dos EUA classificou as tarifas canadenses sobre laticínios como “tremendamente altas”. O USMCA ofereceu cotas limitadas de isenção de impostos para laticínios dos EUA, mas qualquer coisa acima desses níveis pode estar sujeito a tarifas superiores a 200%. Washington contestou repetidamente o sistema de cotas de Ottawa, sem sucesso, e os laticínios continuam sendo um ponto-chave de discórdia na retomada das negociações.

Acordo Sobre Portos no Panamá Enfrenta Nova Pressão

Diversos veículos de comunicação noticiaram que a China ameaçou suspender a venda de mais de 40 portos pela CK Hutchison, sediada em Hong Kong, para a BlackRock e a MSC. O Wall Street Journal publicou uma reportagem exclusiva sugerindo que autoridades chinesas ameaçaram bloquear o negócio, a menos que inclua a COSCO, empresa estatal de transporte marítimo. 

Embora a BlackRock, a MSC e a Hutchison estejam todas supostamente abertas ao envolvimento da COSCO, é improvável que isso agrade ao presidente Trump, que pretende reduzir a influência chinesa no Canal do Panamá. 

O Canal é um ponto de conexão fundamental para o comércio global, especialmente para importadores e exportadores da Costa Leste dos EUA-Ásia. No entanto, também desempenha um papel fundamental no comércio entre a Costa Leste dos EUA e a Costa Oeste da América Central e do Sul.

Fonte: Panama Canal Authority

Um problema com o qual o Canal pode não ter que lidar este ano são os baixos níveis de água. O problema tende a surgir durante a estação seca no Panamá, entre dezembro e abril, mas as altas chuvas no final de 2024 e início de 2025 têm trabalhado a favor do Canal.

Ao longo de 2025, a precipitação no Lago Gatún – o principal alimentador do Canal – tem estado consistentemente acima da média de cinco anos. 

Fonte: Panama Canal Authority

Crescem as Solicitações para Adiar o EUDR

A Mondelez International solicitou recentemente um novo adiamento do European Union Deforestation – EUDR (Regulamento da UE para Produtos Livres de Desmatamento), previsto para entrar em vigor em dezembro de 2025. O regulamento exige que as empresas que comercializam cacau (e diversas outras commodities na UE) comprovem que suas cadeias de fornecimento estão livres dos impactos do desmatamento.  

No entanto, menos de 20% dos produtores de cacau da Costa do Marfim – um fornecedor importante – obtiveram os cartões de identificação de rastreabilidade obrigatórios. A Mondelez alerta que, sem mais tempo para implementar esses sistemas, o cacau em conformidade corre o risco de ser excluído do mercado da UE, prejudicando os produtores, interrompendo as cadeias de fornecimento e aumentando os custos em um setor de EUR 70 bilhões que já enfrenta preços recordes. 

Massimiliano di Domenico, vice-presidente da Mondelez na Europa, enfatizou a necessidade do EUDR ser “viável na prática”, apelando à clareza e simplificação jurídicas. Adiar a lei ajudaria a estabilizar o mercado em meio a choques de oferta e garantiria suporte adequado aos produtores.

Os preços do cacau atingiram níveis recordes em janeiro de 2025, impulsionados pelos desafios da oferta na África Ocidental e pela forte demanda. Embora os preços tenham se estabilizado desde então, eles permanecem elevados, mantendo a pressão sobre o setor. 

Em meio a esses desafios, o Brasil se posiciona como uma força crescente na produção global de cacau. Com previsão de colheita de 300 mil toneladas este ano – um aumento de 4% em relação a 2024 -, o Brasil pretende atingir 400 mil toneladas até 2030. Ao contrário da agricultura familiar tradicional, grandes agroindústrias em regiões como a Bahia estão investindo pesado em mudas, irrigação e práticas modernas de manejo, alcançando produtividades até seis vezes superiores à média nacional. 

Fonte: IBGE

UE-Ucrânia Chegam a um Acordo Preliminar Sobre Exportações Agrícolas

A Comissão Europeia e Kiev chegaram a um acordo preliminar para regulamentar as exportações agrícolas ucranianas para a UE após a expiração das Medidas Comerciais Autônomas – ATMs (em inglês, Autonomous Trade Measures) em 5 de junho de 2025. Desde junho de 2022, as ATMs suspenderam taxas de importação e cotas para apoiar a economia da Ucrânia durante a guerra, ajudando a impulsionar as exportações ucranianas para a UE para quase 60% do total das exportações em 2024, em comparação com 39,1% em 2021. 

Fonte: Eurostat

O novo acordo visa equilibrar a liberalização comercial total sob as ATMs com o sistema tarifário regular do Acordo de Associação UE-Ucrânia, que Kiev alertou que poderia custar à sua economia EUR 3 bilhões anualmente se fosse totalmente restabelecido sem modificações.

Agricultores em países da UE na linha de frente – como Polônia, Hungria e Romênia – protestaram contra as ATMs, argumentando que as importações ucranianas mais baratas prejudicavam os mercados locais. Em resposta, a UE introduziu medidas de proteção que limitaram as importações de certos produtos, e essas medidas continuarão sob o novo acordo, permitindo que os estados-membros apresentem suas preocupações comerciais individualmente. 

O acordo final requer a aprovação dos estados-membros da UE e é esperado em breve, marcando um progresso cauteloso para Kiev em meio às pressões políticas em curso na UE.

Clima Extremo Continua a Causar Impacto 

De acordo com um relatório recente do Centro de Supercomputação de Barcelona (BSC), eventos climáticos extremos continuam a desempenhar um papel fundamental no aumento dos preços dos alimentos. O relatório afirma que eventos extremos de calor, seca ou precipitação intensa impactaram uma série de cultivos, desde alfaces na Austrália até batatas no Reino Unido.

Em um exemplo recente, o leste da China está enfrentando uma onda de calor anormalmente precoce e intensa, com temperaturas próximas a 40°C em importantes províncias agrícolas. Chegando antes do tradicional verão de Sanfu, o calor ameaça as plantações durante estágios vitais de crescimento e aumenta a pressão sobre a renda rural. 

Agricultores na bacia do rio Yangtze relatam estresse térmico nas plantações de arroz, milho e soja. Com baixa precipitação e alta evapotranspiração, a umidade do solo está caindo rapidamente, especialmente em Jiangsu, Anhui e Hubei. Em Sichuan, as preocupações com a seca aumentam devido às chuvas abaixo da média.

E os baixos níveis de água no Reno – uma artéria fundamental para os grãos, minerais e produtos energéticos europeus – estão atormentando a Alemanha por mais um verão. O canal continua raso demais para que as embarcações naveguem totalmente carregadas, o que eleva os custos de transporte e obriga os operadores a impor sobretaxas.

Sara Warden

Sara joined CZ in 2021 as a commodity journalist after a brief period covering commodities and leveraged finance at several London-based new outlets. In the four years prior, Sara lived in Mexico City, where she worked as a bilingual journalist and editor across several key industries, including mining, oil and gas, and health. Since joining CZ, she has led the creation of general interest content that uses data to present key trends, with a focus on attracting a new, broader audience base. She graduated from the University of Strathclyde in 2014 with joint honours in Journalism and Spanish and is currently studying a Master’s in Food Policy.
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