Pontos Principais
2025 foi um ano disruptivo para o setor de transporte marítimo a nível global. Realinhamentos de alianças estratégicas remodelaram a dinâmica competitiva no transporte marítimo, portos e logística. Enquanto isso, pontos críticos geopolíticos — das tarifas dos EUA ao Mar Vermelho e ao Canal do Panamá — ressaltam os crescentes riscos estruturais para 2026.
2025 foi um ano cheio de desafios e transtornos para o setor de transporte marítimo a nível global. As tensões geopolíticas permaneceram como a força dominante moldando as condições de mercado e as decisões estratégicas entre os principais participantes do setor. Ao mesmo tempo, o setor vivenciou uma de suas transformações estruturais mais profundas em quase duas décadas, com o surgimento de novas alianças no transporte marítimo de contêineres.
A seguir, apresentamos um resumo do ano destacando as principais notícias e desenvolvimentos que remodelaram o transporte marítimo a nível global e estabeleceram novas referências para os participantes do setor.
Reestruturação das Alianças no Transporte Marítimo de Contêineres
Em fevereiro de 2025, novas estruturas de alianças entre as principais empresas de transporte marítimo foram lançadas, alterando de forma significativa a dinâmica do mercado e redefinindo o cenário competitivo.

Após a dissolução da aliança dominante 2M, a MSC optou por operar como uma transportadora marítima independente. Essa decisão foi respaldada por uma expansão estratégica e agressiva de sua frota, que agora ultrapassa 7,1 milhões de TEUs. A MSC também detém a maior carteira de encomendas do setor, o que lhe permite competir diretamente com as principais alianças em termos de escala e cobertura de rede.

Fonte: Alphaliner
A Maersk e a Hapag-Lloyd introduziram uma nova rede de serviços baseada em um modelo hub and spoke. Essa rede depende de portos centrais estrategicamente localizados que funcionam como importantes centros de transbordo, conectados a uma rede mais ampla de portos regionais menores. O contraste entre essa abordagem e a estratégia direta point-to-point da MSC criou uma dinâmica competitiva interessante no setor.

Mega Acordo MSC–BlackRock para a Hutchison Ports
Em março de 2025, a Terminal Investment Limited (TiL), braço de operações portuárias da MSC, junto com a investidora global BlackRock, anunciou um acordo de quase USD 23 bilhões para adquirir as operações portuárias e de terminais internacionais da CK Hutchison, empresa com sede em Hong Kong. O acordo abrange mais de 40 portos em mais de 20 países, excluindo ativos localizados na China. Se concluída, essa transação se tornará o maior acordo de ativos portuários da história.

O acordo tem implicações geopolíticas substanciais. Entre os ativos envolvidos estão dois portos no Panamá, um detalhe que recebeu elogios do presidente dos EUA, Donald Trump, e forte oposição de Pequim.
O acordo enfrentou grandes atrasos regulatórios, principalmente por parte das autoridades chinesas e da UE. Mais recentemente, a COSCO, gigante chinesa de transporte marítimo, teria entrado em negociações como potencial participante do consórcio, em uma tentativa de obter a aprovação de Pequim.
Segundo relatos globais, a COSCO busca uma participação majoritária no consórcio, em vez dos 20-30% inicialmente propostos nos 41 portos globais da CK Hutchison (excluindo o Panamá). Essa exigência teria levado a MSC e a BlackRock a considerarem até mesmo a retirada completa do acordo.
“Liberation Day” das Tarifas de Donald Trump
Em 2 de abril de 2025, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou um amplo pacote de tarifas de importação que causou grande impacto nas cadeias de suprimentos globais. O plano introduziu uma estrutura de dois níveis:
- Uma tarifa base de 10% sobre as importações de todos os países não sujeitos a outras sanções
- Tarifas “recíprocas” adicionais, variando de 11% a 50%, sobre os países com os quais os EUA têm os maiores déficits comerciais
Tanto o anúncio quanto a incerteza que o antecedeu aceleraram a movimentação de cargas, principalmente do Sudeste Asiático e da China, regiões que esperava-se que sofressem os impactos tarifários mais severos.
Como as tarifas estão em vigor há apenas alguns meses, a maioria dos economistas espera que seu impacto total fique mais claro em 2026. No entanto, os primeiros indicadores já apontam para mudanças significativas nos padrões do comércio global.
A participação da China nas importações de bens dos EUA continuou a diminuir em meio às pressões tarifárias e às mudanças nas cadeias de suprimentos. As estimativas sugerem que ela caiu de cerca de 22% em 2017 para algo entre 10% e 15% em 2025, com algumas medidas de importação direta se aproximando de níveis ainda mais baixos.

DSV Adquire DB Schenker
Em 30 de abril de 2025, a DSV, gigante dinamarquesa de logística, concluiu a aquisição da DB Schenker da Deutsche Bahn por aproximadamente USD 16,8 bilhões. A transação criou um dos maiores grupos de transporte e logística do mundo.
Mesmo no mercado global de logística, altamente fragmentado, o acordo foi transformador. A DSV efetivamente dobrou de tamanho e consolidou sua posição como um dos principais participantes globais de logística. Em um período de grande incerteza, uma medida tão ousada envia um sinal claro de força, ressaltando a resiliência financeira e a confiança estratégica.

Crise do Mar Vermelho Continua
A crise do Mar Vermelho continuou a dominar o transporte marítimo global ao longo de 2025, transformando de forma efetiva o redirecionamento ao redor do Cabo da Boa Esperança no novo normal.
O Mar Vermelho e o Canal de Suez permaneceram zonas altamente restritas para o comércio internacional.

A crise prolongada remodelou a dinâmica portuária europeia. Portos como o Pireu, na Grécia, sofreram perdas significativas no volume de contêineres, enquanto outros — principalmente Algeciras, na Espanha — se beneficiaram ao se tornarem portos de escala primários para navios que entram na Europa vindos do Atlântico.
Nas últimas semanas, algumas empresas de transporte marítimo retomaram cautelosamente o trânsito pelo Mar Vermelho. No entanto, ainda é cedo para declarar um retorno à normalidade, já que tentativas anteriores foram rapidamente frustradas por novas ameaças ou ataques dos Houthis.
Visão do Presidente Trump para “Restaurar o Domínio Marítimo dos Estados Unidos”
Em abril de 2025, o governo Trump anunciou um decreto executivo para “Restaurar o Domínio Marítimo dos Estados Unidos”. A iniciativa concentra-se na reconstrução do setor naval americano, no combate ao domínio da China e no fortalecimento das capacidades marítimas nacionais.

Os principais objetivos incluem expandir a frota de navios com bandeira dos EUA, melhorar a competitividade no transporte marítimo global e reduzir a dependência de infraestrutura marítima estrangeira, como guindastes navio-terra construídos na China.
Principais Objetivos da Iniciativa:
- Revitalizar a construção naval dos EUA
- Fortalecer a força de trabalho marítima
- Garantir a segurança das cadeias de suprimentos
- Aprimorar a segurança naciona
Níveis de Água e Disputas de Poder no Canal do Panamá
Embora a crise hídrica do Panamá tenha diminuído em 2025 e as operações do canal tenham retornado gradualmente ao normal, a pressão geopolítica sobre o controle desse ponto de estrangulamento global crítico se intensificou.
O presidente Trump acusou a China de exercer influência indevida sobre o Canal do Panamá e sinalizou sua disposição de reafirmar o controle dos EUA sobre o canal.

Essa retórica colidiu com a venda planejada da CK Hutchison de dois importantes portos no Canal do Panamá, como parte de sua estratégia global de desinvestimento — uma transação que logo se tornou politicamente delicada e agora parece estar paralisada. Embora a atenção dos EUA tenha se voltado temporariamente para outros assuntos, não seria surpreendente se o Canal do Panamá ressurgisse como um ponto focal em futuras disputas geopolíticas de poder.