Pontos Principais

O conflito com o Irã interrompeu até 38% do comércio global de fertilizantes. Isso provocou aumentos de preços e paralisações na produção. Enquanto isso, os produtores enfrentam custos crescentes, acesso reduzido a insumos e dificuldades financeiras, e as interrupções nas cadeias de suprimentos estão aumentando os custos de frete e os atrasos. Os impactos mais amplos incluem o aumento da inflação de alimentos, mudanças no mercado de energia e restrição na oferta de metais.

 

Fechamento do Estreito de Ormuz e Interrupções

A guerra no Irã e o subsequente fechamento do Estreito de Ormuz desencadearam um profundo choque nos mercados globais de fertilizantes, gerando um efeito cascata em toda a cadeia de suprimentos alimentares. O conflito começou com ataques coordenados EUA–Israel contra o Irã, levando Teerã a impor um rígido controle sobre o Estreito de Ormuz — um ponto de estrangulamento marítimo por onde normalmente passam quase metade da ureia comercializada no mundo, além de volumes significativos de GNL e amônia.

Essa interrupção suspendeu efetivamente o fluxo de insumos agrícolas essenciais, mergulhando os mercados globais de fertilizantes no que analistas descrevem como uma crise de fornecimento sem precedentes. Com o tráfego marítimo interrompido, 33–38% do comércio global de fertilizantes foi afetado, e aproximadamente 22 milhões de toneladas de exportações anuais de ureia do Golfo não puderam sair do porto.

Como resultado, os preços dos fertilizantes nitrogenados dispararam. Os preços de referência da ureia subiram 30–40%, com os preços spot ultrapassando USD 680 por tonelada, enquanto a amônia anidra ultrapassou USD 900 por tonelada. Esses movimentos de preços estão em consonância com relatórios de mercado mais amplos que mostram um aumento de 30% nos preços de importação de ureia dos EUA em apenas uma semana durante os estágios iniciais do conflito.

As paralisações na produção agravaram a crise. As interrupções no fornecimento de GNL e os danos na infraestrutura energética, especialmente no campo de South Pars, no Irã (um importante campo de hidrogênio), forçaram grandes instalações de produção de fertilizantes no Qatar, na Índia e em Bangladesh a reduzir ou suspender suas operações.

Uma situação semelhante surgiu na Europa, onde a disparada dos preços do gás natural prejudicou a produção de fertilizantes. Essas falhas em cascata formam o que os especialistas chamam de “armadilha dupla do nitrogênio”: não é possível produzir fertilizantes, nem embarcar os estoques existentes.

Conflito Altera a Agricultura

As consequências para a agricultura são imediatas e graves. Nos EUA, a disponibilidade de fertilizantes já está cerca de 25% abaixo das expectativas sazonais, obrigando os produtores a pagar quase o dobro dos preços de janeiro pelos insumos nitrogenados. Isso ocorre em um momento em que a dívida agrícola deverá atingir o recorde de USD 624,7 bilhões em 2026, intensificando a pressão financeira.

Fonte: USDA

O aumento dos custos ameaça a liquidez agrícola e eleva os riscos de crédito para credores, fabricantes de equipamentos e seguradoras. Varejistas e fornecedores agrícolas preveem atrasos ou redução nas compras, à medida que os produtores reduzem orçamentos ou  alteram suas estratégias de plantio para culturas que exigem menos fertilizantes.

Globalmente, os riscos à produtividade estão aumentando. Analistas alertam que as interrupções no plantio de primavera no Hemisfério Norte podem reduzir as taxas de aplicação de fertilizantes nitrogenados, diminuindo a produtividade de culturas básicas como trigo, milho, soja e arroz.

Fonte: USDA

Segurança Alimentar Global em Destaque

O conflito também afetou os fabricantes de alimentos e os produtores agrícolas, que agora enfrentam custos mais altos de ingredientes, atrasos no transporte e pressão sobre as margens de lucro.

Com os fertilizantes nitrogenados sendo responsáveis ​​por quase metade da produtividade agrícola global, a crise dupla de produção e transporte originada no Golfo representa uma ameaça a longo prazo à segurança alimentar, podendo superar os choques anteriores vivenciados durante a pandemia de COVID-19 e o conflito Rússia–Ucrânia.

Ainda este mês, os produtores agrícolas da Estônia planejam realizar um protesto nacional contra as condições desfavoráveis ​​aos produtores estonianos dentro da União Europeia. Nos últimos anos, houve manifestações de produtores em locais tão distantes quanto os Países Baixos, Bósnia, El Salvador e Nova Zelândia, em protesto contra as condições difíceis.

Enquanto os produtores enfrentam custos crescentes, os consumidores têm sido afetados pela inflação crescente dos alimentos, que permanece elevada em muitos grupos de renda. Os países em desenvolvimento, dependentes de importações — especialmente na Ásia, África e Oriente Médio — enfrentam um risco maior de escassez de alimentos.

Aumento das Taxas de Frete e do Congestionamento

Em meio ao caos no Estreito de Ormuz, as taxas de frete de contêineres se fortaleceram – embora não tanto quanto durante a pandemia ou a crise do Mar Vermelho. O congestionamento vem aumentando gradualmente nos principais portos asiáticos, e a interrupção provavelmente se prolongará, o que significa que as taxas ainda têm tempo para subir.

A principal preocupação é o bloqueio de duas passagens importantes – o Mar Vermelho/Canal de Suez e o Estreito de Ormuz, que praticamente limita o comércio Ásia-Europa. O redirecionamento do transporte marítimo ao redor do Cabo da Boa Esperança, na África, acrescenta semanas aos prazos de entrega e milhões em combustível adicional por viagem, elevando ainda mais os preços das commodities. As transportadoras já implementaram Sobretaxas Emergenciais de Combustível na tentativa de absorver os custos.

O congestionamento nos portos de Nhava Sheva, Khor Fakkan, Karachi e Mundra aumentou nas semanas seguintes ao bombardeio inicial, mas desde então normalizou ligeiramente. Mesmo assim, as transportadoras estão sob pressão, enquanto se esforçam para montar novos centros de transbordo e reposicionar os contêineres necessários.

Fonte: Drewry              

Em Outras Notícias…

Boas Notícias para o Etanol?: Com a disparada dos preços do petróleo bruto, os países já estão se apressando para reforçar o fornecimento de combustível – e uma das maneiras de fazer isso é recorrendo ao etanol. Há especulações sobre se as usinas brasileiras poderiam priorizar a produção de etanol devido ao aumento do preço da gasolina. O governo tailandês também estaria priorizando o E20 em um esforço para estabilizar os preços dos combustíveis. Já na Índia,  a crise energética deve impulsionar a adoção de veículos elétricos, incentivar veículos flex e aumentar os níveis de mistura. O país já planeja aumentar gradualmente seu limite de mistura de E22 para E27.

Interrupção no Mercado de Metais: Um relatório da Wood Mackenzie projetou um déficit global de alumínio de 200 mil toneladas em 2026, antes do conflito no Golfo – e a situação provavelmente só piorará se a guerra se prolongar. Considerando que o Oriente Médio é um produtor essencial de alumínio, o déficit poderá aumentar para 800 mil toneladas até 2028, afirma a Wood Mackenzie.

UE Consolida Acordos Comerciais: A UE deverá finalizar os acordos comerciais com a Austrália e o Mercosul nos próximos meses, preparando o terreno para facilitar o comércio. O acordo UE-Mercosul está em negociação há 20 anos, mas, segundo informações, poderá entrar em vigor já em maio. Enquanto isso, as negociações sobre o acordo UE-Austrália deverão ser concluídas durante a visita de Ursula von der Leyen a Canberra no final de março.

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Sara Warden

Sara joined CZ in 2021 as a commodity journalist after a brief period covering commodities and leveraged finance at several London-based new outlets. In the four years prior, Sara lived in Mexico City, where she worked as a bilingual journalist and editor across several key industries, including mining, oil and gas, and health. Since joining CZ, she has led the creation of general interest content that uses data to present key trends, with a focus on attracting a new, broader audience base. She graduated from the University of Strathclyde in 2014 with joint honours in Journalism and Spanish and is currently studying a Master’s in Food Policy.
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