Pontos Principais
O frágil cessar-fogo coloca o transporte marítimo no Oriente Médio sob séria ameaça. Embora as interrupções permaneçam contidas, os ataques a portos e os prêmios de seguro – de até 60% – apresentam volatilidade crescente, especialmente perto do Estreito de Ormuz. As empresas de transporte marítimo estão se adaptando, redirecionando rotas e gerenciando custos mais altos em meio à incerteza contínua.
Como já se passaram várias semanas desde o conflito intensificado entre Irã e Israel e atualmente estamos em um frágil cessar-fogo, podemos avaliar o impacto global no setor de transporte marítimo até ao momento e explorar cenários potenciais para o futuro próximo e mais amplo.
É importante observar que a situação permanece altamente instável. Diversos analistas sugerem que Israel já está buscando a próxima oportunidade para lançar outro conflito devastador com o objetivo de derrubar a República Islâmica do Irã – embora isso provavelmente exija a aprovação prévia dos EUA.
Conflito Prejudica Portos e Cadeias de Fornecimento
Embora as estimativas e análises iniciais tenham sido bastante extremas – como costuma acontecer durante crises -, o impacto atual do conflito Irã-Israel no setor de transporte marítimo tem sido relativamente limitado. Embora tenha havido desenvolvimentos significativos que afetam as transportadoras e as empresas operadoras ou proprietárias de embarcações, os efeitos gerais permanecem administráveis e muito menos graves do que os resultados da crise do Mar Vermelho, que surgiu no final de 2023.
O que temos observado principalmente são ataques à infraestrutura em ambos os países, assim como no Iêmen, onde os Houthis – que se opõem a Israel desde o início do conflito Israel-Palestina – estão baseados.
Recentemente, o exército israelense atingiu alvos Houthis no porto de Hodeidah, no Iêmen. O Ministro da Defesa israelense, Israel Katz, afirmou que o exército estava “reagindo energicamente a qualquer tentativa de restaurar a infraestrutura terrorista previamente atacada”. O exército israelense também alegou que o porto havia sido usado para transferir armas do regime iraniano, que foram então empregadas pelos Houthis para lançar ataques terroristas contra o Estado de Israel e seus aliados.
Além disso, Ras Isa e Salif – dois portos importantes no Iêmen, no Mar Vermelho – junto com o maior porto de Hodeidah, também foram alvos de Israel.
Além disso, no final de junho, o porto de Haifa – principal centro de transporte marítimo de Israel – foi alvo de um ataque com mísseis diurnos. De acordo com as Forças de Defesa de Israel (IDF), 23 mísseis foram lançados pelo Irã.
O primeiro porto a suspender oficialmente as operações após o início da guerra foi o de Eilat, o único porto israelense no Mar Vermelho, localizado na ponta norte do Golfo de Aqaba. Eilat suspendeu as operações em 20 de julho devido a dívidas pesadas e impostos não pagos, causados por uma queda drástica no transporte marítimo, desencadeada pelo bloqueio Iêmen-Houthis do Mar Vermelho.
Representando até 7% do comércio marítimo de Israel e fazendo parte da sua infraestrutura de segurança no sul, o fechamento do porto foi interpretado por diversos analistas como uma vitória para os Houthis e uma perda para Israel.
Prêmios de Risco de Guerra Aumentam no Golfo
Em um relatório de meados de julho, a Pole Star Global observou um aumento acentuado nos custos de seguros contra riscos de guerra de até 60% em meio ao aumento das tensões no Oriente Médio. Embora não seja inesperado, esse aumento substancial reflete a crescente volatilidade em regiões como o Mar Vermelho e o Golfo Pérsico, principalmente ao redor do Estreito de Ormuz, de acordo com a empresa de inteligência marítima.
Os prêmios na área do Estreito aumentaram de aproximadamente 0,125% para 0,2-0,4% do valor do casco e maquinário – H&M (em inglês, Hull and Machinery) de um navio, levando a aumentos de custos significativos. Enquanto isso, os prêmios para navios que atendem o Golfo do Oriente Médio aumentaram de 0,2- 0,3% para 0,5%, adicionando despesas diárias significativas para os navios petroleiros de grande porte – VLCCs (em inglês, Very Large Crude Carriers).
“Embora o recente cessar-fogo entre Israel e Irã tenha aliviado ligeiramente as taxas, agora para a faixa alta de 0,35-0,45%, a volatilidade persiste”, observa o relatório da Pole Star Global, acrescentando que as classificações de risco de guerra estão mudando semanalmente – ou mesmo diariamente – em resposta às mudanças geopolíticas em curso.
Riscos de Intensificação do Conflito Aumentam no Estreito de Ormuz
Ao analisar a situação mais ampla no Oriente Médio, Saleem Khan, Diretor de Dados e Análise da Pole Star Global, afirmou que, embora o fechamento total do Estreito seja improvável, ainda é uma possibilidade caso o conflito se intensifique. Tal desenvolvimento representaria sérios desafios nos níveis de transporte marítimo, econômico e geopolítico.
Khan identificou três desenvolvimentos importantes que poderiam desencadear o fechamento do Estreito de Ormuz:
- Intensificação do Conflito por Ataques Diretos ou Indiretos: se os representantes iranianos tiverem como alvo o tráfego comercial suspeito – em particular navios com bandeira dos EUA ou de Israel – ou se o Irã utilizar guerra assimétrica (por exemplo, minas ou mísseis antinavio), as interrupções no transporte marítimo poderão ocorrer rapidamente.
- Bloqueio por meio de Força Militar ou Semioficial: um fechamento deliberado do Estreito constituiria uma grande intensificação do conflito, provavelmente provocando confrontos navais diretos com potências regionais e ocidentais. Tal medida teria consequências geopolíticas significativas e agravaria o conflito. Embora altamente improvável, poderia alienar o regime iraniano de importantes parceiros comerciais e aliados que dependem do petróleo e do gás do Golfo Pérsico.
- Interrupções Colaterais: mesmo sem um bloqueio formal, o aumento do bloqueio dos sinais do sistema de identificação automática – AIS (em inglês, Automatic Identification System) perto de portos iranianos (já relatado perto de Bandar Abbas) aumenta os riscos à navegação. Ataques contínuos à infraestrutura petrolífera podem forçar o redirecionamento de navios ou gerar sobretaxas de seguro mais altas.
Khan enfatizou que as empresas de transporte marítimo já estão lidando com o aumento dos prêmios de risco de guerra e até mesmo a ameaça de novos transtornos pode levar a taxas de frete globais mais elevadas.
Transportadoras se Adaptam à Crise do Mar Vermelho
Enquanto isso, a situação no Mar Vermelho permanece “estavelmente instável”. A maioria das transportadoras marítimas continua a contornar o Canal de Suez e opta pela rota ao redor da África, devido à instabilidade contínua causada pelos ataques Houthis a navios de carga. As transportadoras se adaptaram a esse transtorno, planejando suas rotações de serviço em portos com o bloqueio de Suez como uma certeza.
Essa mudança teve um efeito dominó em todo o setor portuário, alterando significativamente os fluxos de tráfego. Alguns portos, como Valência, na Espanha, registraram aumentos no volume – tornando-se um dos primeiros portos de escala da Europa devido à rota africana. Outros, como o porto de Pireu, na Grécia, sofreram quedas acentuadas, já que o Canal de Suez, bloqueado, era uma artéria crucial para seu fluxo.
