Pontos Principais
O Brasil é uma potência agrícola e um dos principais exportadores de grãos e carne. No entanto, com o crescimento contínuo do setor agrícola, a expansão futura está ameaçada pela infraestrutura logística obsoleta. O país precisa investir urgentemente para acompanhar a crescente demanda por seus produtos agrícolas.
Brasil Domina Exportações Agrícolas
O Brasil tem investido continuamente no setor de transporte marítimo nos últimos anos, alcançando um crescimento notável em sua infraestrutura, rede e capacidades. O país desempenha um papel essencial no comércio global, especialmente no setor agrícola, ocupando o primeiro lugar global nas exportações de açúcar, soja e café, o segundo lugar em carne bovina e o terceiro lugar em algodão, milho e frango.
Fonte: Comex
Embora o Brasil seja tradicionalmente uma potência no setor agrícola, também tem se destacado no segmento de contêineres nos últimos anos. O Porto de Santos, principal hub do país, está entre os 50 principais portos de contêineres do mundo. Em 2024, atingiu o marco significativo de movimentar 5 milhões de TEUs pela primeira vez em um único ano, operando em 100% de sua capacidade.
Fonte: World Shipping Council
Apesar disso, o Brasil perde bilhões de dólares a cada ano devido a problemas de congestionamento e gargalos de longa data, causados pela incapacidade dos terminais brasileiros de atender às crescentes expectativas de demanda. Com o aumento da demanda nacional se tornando cada vez mais premente, a situação do Brasil pode ter consequências catastróficas se o país não realizar os investimentos necessários em infraestrutura.
De acordo com o Centro Nacional de Navegação Transatlântica (Centronave), a demanda nacional deverá atingir 15,2 milhões de TEUs até 2028, superando a capacidade operacional dos portos brasileiros, projetada em cerca de 15,1 milhões de TEUs. Até 2036, a demanda deverá exceder a capacidade instalada e, até 2047, a demanda nacional poderá atingir 42 milhões de TEUs, quase o dobro da capacidade projetada de 23,9 milhões de TEUs dos portos brasileiros.
Fonte: Centronave
Porto de Santos Enfrenta Problemas
A incompatibilidade entre a demanda crescente e a capacidade atual é mais evidente em Santos do que em qualquer outro porto do país. Notavelmente, os maiores navios porta-contêineres que podem atracar nos terminais de Santos (e em geral no país) têm capacidade para 13.000 TEUs, o que significa que os navios brasileiros estão cinco gerações atrás. Os canais portuários do país são muito rasos para acomodar os maiores navios porta-contêineres do mundo, que podem transportar até 24.000 TEUs.
É por isso que o Porto de Santos planeja aprofundar seu canal para 16 metros até 2026 e 17 metros até 2031, permitindo que navios maiores, com capacidade de 18.000 TEUs, atraquem em seus terminais.
Um problema crônico no Porto de Santos, e em geral no Brasil, são os atrasos. Em 2024, apenas 23% dos embarques de contêineres do Brasil partiram na data programada. Em Santos, especificamente, 55% dos navios enfrentaram problemas de congestionamento, com alguns esperando até 10 dias para atracar. Esses atrasos são particularmente onerosos para o agronegócio. Por exemplo, em março de 2025, gargalos impediram a exportação de 600.000 sacas de café (1.932 contêineres), resultando em um prejuízo de USD 1,57 milhão.
Além de modernizar sua infraestrutura atual, o Porto de Santos também planeja usar a tecnologia digital dupla para lidar com os desafios de congestionamento. Uma réplica virtual do porto permitirá o monitoramento em tempo real do tráfego de embarcações e do fluxo de cargas, sugerirá possíveis soluções e aumentará a eficiência geral da programação. Sistemas digitais semelhantes em Rotterdam e Houston reduziram os tempos de resposta em 15-20%, e Santos pretende atingir níveis semelhantes.
Brasil Deve Atrair Novos Investidores Estrangeiros
Diversos projetos estão em andamento em todo o país, incluindo novos terminais e expansões, visando aumentar a capacidade nacional para atender ao aumento esperado da demanda. A Maersk e a DP World estão entre os principais participantes do setor envolvidos em projetos de expansão no porto de Santos, com a DP World visando dobrar a capacidade de contêineres do seu terminal.
No entanto, o envolvimento de mais investidores estrangeiros pode ser a chave para o Brasil superar os atuais e severos desafios e se preparar para os desafios futuros.
Este parece ser o caminho que o Brasil está trilhando, a julgar por um caso recente envolvendo a tentativa da Maersk de expandir sua rede no Brasil, que acabou na Justiça. Em junho de 2025, a gigante dinamarquesa de transporte marítimo entrou com uma ação judicial contra a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), solicitando a suspensão do processo de licitação para a construção e operação do Tecon 10, um novo megaterminal no Porto de Santos.
O pedido da Maersk foi rejeitado por um juiz brasileiro, que não encontrou ilegalidade no processo. De acordo com a legislação brasileira, operadores de terminais existentes em um porto estão excluídos da apresentação de propostas na primeira rodada para novos terminais. As empresas existentes somente poderão apresentar propostas na primeira rodada se nenhum novo operador manifestar interesse.
Descentralização das Operações
Outra medida do governo brasileiro para aliviar a rede portuária e de transporte marítimo do país é o Novo Programa de Aceleração do Crescimento (Novo PAC). Com o objetivo de reduzir a dependência do Porto de Santos, o governo está incentivando o desenvolvimento portuário regional através do programa, que já destinou cerca de USD 11 bilhões para 37 novos arrendamentos portuários até 2026, com foco nas regiões Norte e Nordeste.
Projetos importantes incluem o Porto do Pecém, agora um hub para o hidrogênio verde, que registrou volumes recordes de carga em 2024 graças aos investimentos em energia renovável. Outros projetos importantes incluem os portos de Paranaguá e Rio Grande, essenciais para a exportação de soja e carne. A privatização de seus canais de navegação deverá atrair novos contratos de dragagem, garantindo calados mais profundos para os navios Panamax.
O Caminho à Frente
O Brasil é obrigado a prosseguir com projetos significativos e imediatos de desenvolvimento e expansão para evitar um cenário futuro catastrófico. Os três pilares nos quais o Brasil deve basear seus esforços são modernização de infraestrutura, adoção de tecnologia e cooperação público-privada.
Terminais, pátios, armazéns e equipamentos de movimentação precisam ser modernizados e atualizados para acompanhar as tendências do setor e aumentar a capacidade dos portos brasileiros. Novos sistemas digitais devem dar suporte a toda a rede portuária e de transporte marítimo do país, acelerar processos, prever problemas e fornecer soluções eficazes para os desafios emergentes.
Tudo isso só será possível se o setor público brasileiro cooperar com investidores estrangeiros. Estes últimos devem trazer a expertise, o know-how e o capital necessários para o desenvolvimento do setor de transporte marítimo brasileiro, enquanto o governo e as autoridades públicas devem permanecer vigilantes para garantir que os investimentos e projetos estejam alinhados com a estratégia e os objetivos nacionais do país.
