Pontos Principais

A produção de sorgo no Brasil tem registrado forte alta, impulsionada pela demanda para a produção de etanol e as exportações. A demanda doméstica do setor de etanol de grãos, que segue em rápida expansão, está impulsionando uma produção recorde de sorgo, que deve atingir 7,34 milhões de toneladas neste ano, em um aumento de 20,4% em relação à safra anterior. Novas oportunidades de exportação, principalmente para a China, reforçam esse crescimento, elevando os embarques para um recorde de 231,7 mil toneladas entre janeiro e agosto.


Sorgo Ganha Protagonismo

Até pouco tempo atrás, o sorgo desempenhava um papel secundário na safra de grãos no Brasil. A crescente demanda por parte do setor de etanol de milho, que pode utilizar o sorgo como substituto do milho, vem mudando esse cenário. A Conab estima que a produção atingirá um recorde de 7,34 milhões de toneladas neste ano, em um aumento de 20,4% em relação à safra anterior. Entre 2016 e 2025, a produção cresceu 510%, partindo de menos de 1 milhão de toneladas por ano.

Fonte: Conab

A expansão das usinas de etanol de milho levou a demanda por matéria-prima, incluindo o sorgo, a novos patamares. Apenas entre 2020 e 2025, a produção de etanol de milho passou de 1,63 milhão de toneladas a 8,24 milhões de toneladas, em um aumento superior a 400%, segundo a União Nacional do Etanol de Milho (Unem). A expectativa é que, até 2033, a produção alcance cerca de 16,6 milhões de toneladas.

Fonte: Unem

A pressão para novos avanços na transição energética, traduzida no uso crescente de combustíveis limpos, é uma das principais forças por trás dessa expansão. Outro fator de peso é a rentabilidade das usinas, já que cada grama de milho ou sorgo é aproveitada para produzir uma série de produtos, como DDG e óleo, destinados ao setor de ração animal.

Atualmente, as plantas contam com equipamentos flex capazes de processar tanto milho quanto sorgo. Essa flexibilidade reduz a dependência de uma única matéria-prima e ajuda a garantir o surprimento.

Hoje, as usinas de etanol de grãos consomem cerca de 1 milhão de toneladas de sorgo por ano, segundo estimativas preliminares da Embrapa. Isso representa um aumento expressivo em relação a alguns anos atrás, quando o consumo de sorgo era mínimo.

Além disso, grandes usinas foram inauguradas em regiões-chave para o cultivo de sorgo, como a Bahia, Goiás e o Piauí. “Isso tem incentivado a produção do cereal, já que essas plantas proporcionam uma demanda estável”, afirma Thiago Skaf, diretor de relações governamentais e sustentabilidade da Unem.

Fonte: Conab

Uma Cultura Mais Atrativa para os Produtores

Para os produtores, essa mudança no mercado trouxe outro benefício importante. “As usinas trouxeram maior segurança comercial ao permitir que os produtores fechem o preço e acertem antecipadamente os volumes de vendas”, afirma Frederico José Evangelista Botelho, vice-chefe de Transferência de Tecnologia da Embrapa Milho e Sorgo.

Frederico José Evangelista Botelho. Foto divulgação.

Até então, os produtores enfrentavam desafios de comercialização e liquidez. “Muitas vezes, os produtores não sabiam para quem venderiam, ou mesmo se haveria mercado para a sua safra”, afirma Botelho. O sorgo costumava servir como uma alternativa quando as condições climáticas prejudicavam a janela de plantio do milho.

Com uma base de compradores mais consolidada, a atenção se voltou para as vantagens competitivas do sorgo. A cultura exige menos água, o que a torna bem adaptada a regiões secas, e apresenta maior tolerância a altas temperaturas.

“Em partes do Matopiba e do Centro-Oeste, o clima é menos favorável para o milho segunda safra, que demanda um maior volume de chuvas”, afirma Daniel Rosa, diretor da Associação Brasileira dos Produtores de Milho e Sorgo (Abramilho). “O sorgo, por sua vez, se adapta bem a condições de menor umidade”.

Daniel Rosa. Foto divulgação.

Mudanças Climáticas Redefinem Decisões de Plantio

A redução na janela de plantio do milho segunda safra, causada por mudanças nos padrões climáticos, tem servido como um incentivo adicional ao cultivo de sorgo. Essa tendência se tornou mais acentuada em áreas mais secas, incluindo partes das regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste.

Não por acaso, a cultura se expandiu principalmente em áreas como o Matopiba, fronteira agrícola que abrange o Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, em que as chuvas têm chegado cada vez mais tarde durante o período de plantio do milho segunda safra. No Piauí, por exemplo, a produção de sorgo saltou de um volume irrisório de 100 toneladas em 2016 para cerca de 315,5 mil toneladas em 2025, segundo a Conab.

 

Fonte: Conab

No Maranhão, o aumento na produção também foi significativo. Entre 2019 e 2025, a expansão foi de quase 400%, segundo a Conab. Para este ano, a previsão é de uma colheita de 268,2 mil toneladas, em um aumento de 115% em relação à safra anterior.

Fonte: Conab

O milho permanece como o principal grão da segunda safra, com uma produção que tem superado 16 milhões de toneladas nos últimos anos, segundo a Conab. Nesta safra, a expectativa é de uma colheita de 17,8 milhões de toneladas, diante de 17,43 milhões de toneladas da safra anterior, o que representa aproximadamente 80% de todo o milho produzido no país.

Fonte: Conab

O sorgo, no entanto, tem ocupado uma posição de destaque cada vez maior, inclusive por meio de novas oportunidades de exportação.

Exportações Decolam

Até recentemente, as exportações eram modestas e esporádicas, impulsionadas mais por oportunidades pontuais do que por uma demanda consistente. Com isso, as exportações apresentavam uma instabilidade significativa. Em 2024, por exemplo, uma demanda pontual da África do Sul — que enfrentou uma quebra na safra de sorgo — representou 94% do total das exportações, somando 179,9 mil toneladas, em um aumento de 431% em relação ao total registrado em 2023.

Isso não se repetiu em 2025, quando as exportações se concentraram no sorgo para semeadura, em volumes bem menores, para países como Paraguai e Bolívia. Outro exemplo da natureza esporádica das exportações de sorgo do Brasil ocorreu em 2021, quando os embarques também permaneceram bastante limitados, consistindo apenas de compras ocasionais de sorgo para semeadura por países como a Venezuela e a Bolívia.

Entre janeiro e agosto deste ano, os embarques totalizaram um recorde de 231,7 mil toneladas, segundo a Comex.

O Brasil e a China assinaram um acordo fitossanitário em novembro de 2024, marcando o início das exportações brasileiras para os portos chines. No final do ano passado, Pequim concedeu as primeiras autorizações para que empresas brasileiras exportassem o grão — o que fez com que as exportações disparassem.

* De janeiro a agosto.

Fonte: Comex

Estimativas de mercado baseadas em embarques já contratados por empresas como a Cofco International indicam que as exportações para a China podem superar 1 milhão de toneladas neste ano. O país já responde por aproximadamente 85% dos embarques de sorgo do Brasil, segundo a Comex.

A produção de sorgo deve continuar a se expandir nos próximos anos, segundo Botelho. “Já estamos vendo um forte crescimento no cultivo em regiões como o oeste da Bahia, onde o milho safrinha tem sido cada vez mais afetado pelas mudanças climáticas. Com novas oportunidades de exportação e um mercado doméstico mais robusto, é provável que o sorgo conquiste uma participação maior na área destinada ao cultivo de grãos no país”, afirma.

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Carla Aranha

Carla joined CZ in 2022 having previously worked at Exame and Valor, leading economic media outlets in Brazil, where she developed projects and news coverage focusing on the agribusiness and commodities markets. Carla is responsible for writing content, providing interesting article´s subjects and reports as well as producing press releases together with the marketing team.

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