Pontos Principais
O cessar-fogo derruba os preços da energia e do óleo vegetal. Os preços da soja permaneceram próximos aos níveis pré-guerra, já que a incerteza comercial EUA–China e a safra recorde do Brasil superaram os efeitos indiretos dos mercados de energia. O aumento da oferta brasileira, as perspectivas de demanda chinesa mais fraca e a expansão da área de plantio nos EUA apontam para uma pressão contínua de baixa.
Cessar-Fogo Afeta a Energia e os Óleos Vegetais, Enquanto a Soja se Mantém Estável
Imediatamente após o anúncio, em 7 de abril, de um cessar-fogo de duas semanas na guerra com o Irã, houve quedas de dois dígitos nos preços do petróleo bruto e do diesel, mas o óleo de soja caiu apenas 3–4%, e houve pouca variação nos preços da soja e do farelo de soja. Enquanto isso, outra grande campanha de exportação brasileira pairava sobre o mercado.
A soja está ligada aos mercados de petróleo principalmente através do uso do óleo de soja para biodiesel e seu papel como substituto do óleo de palma — uma das commodities alimentares mais expostas devido ao crescente programa de biodiesel da Indonésia. Os preços futuros do óleo de palma subiram 17% desde o início da guerra no Irã, e os preços do óleo de soja de Chicago subiram 14%. O óleo de soja da China, contido pela ampla oferta após volumes recordes de moagem no ano passado, subiu apenas 6%.
Menos de um dia após o anúncio do cessar-fogo feito pelo presidente Trump, os preços futuros dos três principais óleos vegetais haviam caído 3–4%. Essas quedas reverteram o aumento de 5% nos preços dos óleos vegetais em todo o mundo para o mês de março, estimado pela FAO da ONU.

Em comparação, os preços da soja não estavam muito distantes dos níveis pré-guerra, já que as tensões comerciais EUA–China e uma safra recorde no Brasil eram os principais fatores que impulsionavam o mercado. Os preços da soja haviam subido no início de março devido às perspectivas de uma cúpula EUA–China que deveria incluir compromissos adicionais da China para comprar soja dos EUA.
Uma queda acentuada nos preços em 16 de março, atribuída à notícia de que a cúpula seria adiada (agora prevista para 14 e 15 de maio), foi o evento mais significativo para a soja. Após essa queda, os preços futuros da soja (Chicago CME) e os preços FOB (Golfo dos EUA) permaneceram notavelmente estáveis, oscilando dentro de uma faixa estreita de USD 11,55–11,75 por bushel. Os preços na bolsa de Chicago ainda se encontravam nessa faixa no dia seguinte ao anúncio do cessar-fogo.

Safras Recordes da Soja Brasileira Pressionam os Preços; Exportações Encontram Outros Destinos Além da China
Os preços da soja brasileira têm sofrido pressão da oferta devido à safra recorde do país. Com o avanço da colheita no Mato Grosso — principal região produtora de soja do Brasil — o preço médio ao produtor caiu de um pico de BRL 120,81 por saca de 60 kg em novembro de 2025 para BRL 102,60 por saca de 60 kg em fevereiro de 2026. O preço no Mato Grosso se recuperou em março, mas ainda estava cerca de 5% abaixo do nível do ano passado.

Fonte: CONAB
A safra da soja brasileira chegou ao mercado global em março, com o Brasil exportando 14,5 milhões de toneladas, uma leve queda em relação às 15,66 milhões de toneladas do ano anterior. As exportações brasileiras nos primeiros três meses de 2026 totalizaram 23,47 milhões de toneladas, um aumento em relação às 22,16 milhões de toneladas do mesmo período no ano passado.
Em março de 2026, a China foi o destino de 9,97 milhões de toneladas das exportações da soja brasileira, representando 69% do total. A União Europeia — principalmente Espanha e Países Baixos — foi o segundo maior destino, com 1,2 milhão de toneladas, ou 8,4% do total. Outros destinos com embarques superiores a 185.000 toneladas incluíram Turquia, México, Tailândia, Bangladesh, Paquistão, Vietnã e Taiwan. Um total adicional de 1 milhão de toneladas foi enviado para outros 12 destinos.

Fonte: COMEX
As exportações da soja do Brasil para a China em março caíram 1,16 milhão de toneladas em relação ao ano anterior (revertendo os aumentos anuais registrados em janeiro e fevereiro). Enquanto isso, as exportações para a maioria dos outros destinos aumentaram em março. As exportações do Brasil para os Países Baixos em março aumentaram 244.000 toneladas em relação ao ano anterior, as exportações para o México aumentaram 189.000 toneladas; as exportações para Bangladesh registraram um aumento de 129.000 toneladas e as exportações para a Tailândia, de 123.000 toneladas.

A queda nas exportações para a China pode ser resultado de inspeções mais rigorosas. O Ministério da Agricultura do Brasil adotou novos procedimentos de inspeção em resposta a reclamações das autoridades alfandegárias chinesas sobre sementes de ervas daninhas, soja com aplicação de pesticidas e danos causados pelo calor em carregamentos da soja brasileira.
Segundo relatos, um exportador suspendeu as compras da soja brasileira para envio à China, outros dois buscaram esclarecimentos junto a autoridades brasileiras e 20 ou mais embarcações ficaram retidas em portos brasileiros aguardando inspeções. Após viagens de autoridades brasileiras à China no mês passado, seus homólogos chineses concordaram em não flexibilizar a política de tolerância zero para sementes de ervas daninhas enquanto uma tolerância precisa fosse determinada, mas as incertezas persistiram.
Demanda Chinesa Pode Aumentar com o Aumento da Oferta
Na China, o setor espera uma reversão da situação de oferta limitada de soja, óleo e farelo com a chegada de um grande volume da soja do Brasil entre maio e julho.
O aumento relativamente modesto nos preços do óleo de soja na Dalian Exchange, na China, durante a guerra no Irã, mencionado anteriormente, reflete um mercado relativamente saturado no país. A capacidade da China de absorver outro aumento na produção de óleo de soja em 2026 — caso a moagem seja igual à do ano passado — é limitada pela relativa fragilidade da macroeconomia chinesa, pelo declínio do setor de serviços alimentícios e pelo envelhecimento da população. Com os preços do óleo de soja relativamente baixos e os preços internacionais elevados para o óleo de palma, os fabricantes chineses de óleos comestíveis começaram a exportar óleo de soja em 2025 e espera-se que voltem a exportar este ano. O maior mercado é a Índia.
A produção chinesa de farelo de soja pode não ser suficiente para suprir a demanda do ano passado. Em 2025, a produção de ração animal na China cresceu 8,6%, impulsionada pela forte expansão da criação de suínos e outros animais. O aumento da oferta de farelo de soja proveniente da importação manteve os preços da ração baixos, contribuindo para o crescimento da produção de ração e da pecuária. A produção de ração registrou um novo aumento de 3,4% em relação ao ano anterior durante os dois primeiros meses de 2026, mas o crescimento da produção pecuária e do consumo de ração pode não se manter neste ano.
Os preços da carne suína caíram de forma acentuada em março, levando quase todos os produtores a perdas substanciais. Espera-se que isso resulte em uma redução do número de suínos e no fim das operações de pequenos e médios produtores que não possuem recursos financeiros para lidar com o fluxo de caixa negativo.
Caso a China não consiga manter o mesmo nível de importações de soja em 2026, o desvio das exportações da soja do Brasil para outros destinos na Europa e na Ásia, observado em março, poderá continuar nos próximos meses, mantendo a pressão de baixa sobre os preços. A probabilidade da China aumentar suas compras da soja dos EUA está diminuindo, já que a cúpula EUA–China ocorrerá faltando apenas alguns meses para o fim do ano comercial de 2025/26. A atenção se voltará, então, para a promessa da China de comprar 25 milhões de toneladas anualmente.
A situação da oferta no ano comercial de 2026/27 pode não melhorar, já que a primeira pesquisa de intenções de plantio do USDA relatou uma expansão de 3,5 milhões de acres na área de plantio da soja nos EUA em 2026, totalizando 84,7 milhões de acres. A pesquisa reflete uma mudança na área de plantio por causa do milho, que apresentou preços baixos e é mais vulnerável ao aumento dos custos de fertilizantes. Embora a pesquisa apresente uma lacuna de precisão e tenha ocorrido antes do plantio propriamente dito, parece provável que os EUA não reduzam a produção, apesar da queda nas exportações de soja para a China.

Fonte: USDA