Pontos Principais
A China prevê queda nas importações de soja, apesar do aumento da oferta. A soja brasileira mais barata reduziu os preços, sustentando a demanda, impulsionando a expansão da pecuária e substituindo outros óleos comestíveis, apesar dos desafios econômicos e demográficos. A principal questão para 2026 é se a China conseguirá absorver outro aumento nas exportações brasileiras, à medida que a queda nas margens de lucro e as perdas na pecuária começam a conter a demanda.
Demanda Chinesa Enfrenta Dificuldades e Contrasta com o Crescimento das Importações Impulsionado pelo Brasil
Esta semana, o Ministério da Agricultura da China projetou que as importações de soja por parte da China cairão de 112 milhões de toneladas em 2025 para 82,6 milhões de toneladas em 2035, anulando a década de crescimento das importações. Essa projeção não leva em conta o papel do aumento da oferta, que pressiona os preços para baixo, estimulando a demanda — um processo que perpetua a dependência da China em relação à importação de soja. Mas levanta a questão de se a China conseguirá absorver mais um influxo da soja brasileira em 2026.

Obs.: Dados históricos da PS&D (Produção, Oferta e Distribuição de Alimentos) do USDA e projeções divulgadas pela Academia Chinesa de Ciências Agrícolas, 20 de abril de 2026.
A demanda chinesa por soja enfrenta alguns fatores adversos. A taxa de natalidade do país despencou, e os idosos são o grupo populacional que cresce mais rapidamente. A economia claramente desacelerou, com o crescimento oficial do PIB e o desemprego ambos em 5% (e ambos os números provavelmente são otimistas demais). Cozinhas fantasmas que produzem comida a baixo custo para entrega estão substituindo restaurantes sofisticados. O consumo per capita de óleos comestíveis diminuiu ligeiramente de 29,3 kg para 28,5 kg entre 2024 e 2025.
O Ministério da Agricultura da China atribui a queda projetada nas importações de soja à redução do consumo de óleo comestível por parte dos consumidores preocupados com a saúde, à diminuição do uso de farelo de soja na ração animal por pecuaristas e à expansão da produção doméstica de soja. No entanto, o aumento da oferta do Brasil está enfraquecendo essas narrativas, pressionando os preços para baixo e estimulando a demanda por soja importada, apesar do cenário geral de demanda fraca na China.
O Ministério da Agricultura da China não menciona que vem prevendo uma queda nas importações de soja desde 2022, quando projetou que as importações cairiam para 85,8 milhões de toneladas até 2031. Essa projeção se mostrou bastante equivocada. Apesar dos fatores adversos descritos acima, as importações de soja por parte da China atingiram um recorde de 112 milhões de toneladas no ano civil de 2025. A insistência do ministério em projetar quedas ano após ano sugere que essas projeções são propaganda disfarçada de análise objetiva de mercado.
A expansão das exportações brasileiras e a queda nos preços das commodities estimularam o consumo de soja na China, apesar da desaceleração da economia chinesa e do início do declínio populacional. Entre 2022 e 2025, as importações da soja brasileira por parte da China aumentaram de 54,4 para 82,3 milhões de toneladas. Enquanto isso, o custo médio da soja importada caiu de um pico de USD 723 por tonelada em agosto de 2022 para USD 443 por tonelada em agosto de 2025.

Fonte: China Customs

Obs.: Valor médio mensal das importações de soja
Fonte: China Customs
O preço do farelo de soja chinês — principal produto do processamento da soja — caiu com o aumento do volume de importações, estimulando o consumo. Em 2025, o preço médio do farelo de soja caiu 40% em relação ao pico de 2022. O farelo de soja mais barato, por sua vez, incentivou fábricas de ração e pecuaristas a manterem altas proporções de farelo de soja na ração animal — contrariando as instruções do Ministério da Agricultura para reduzir o consumo. A ração barata manteve os custos de produção sob controle para os pecuaristas, contribuindo para uma expansão acelerada. Entre 2022 e 2025, a produção de ração para suínos cresceu 30 milhões de toneladas e a de ração para aves, 12 milhões de toneladas, segundo a Associação da Indústria de Ração Animal da China. O farelo de soja representou de 12% a 15% dos ingredientes da ração.

Fonte: Ministério da Agricultura e Assuntos Rurais da China
Óleo de Soja Barato Mascara a Fraca Demanda em Meio ao Aumento nas Exportações do Brasil
O aumento das importações de soja por parte da China também pressionou para baixo o preço do óleo de soja — o outro produto do processamento da soja. O óleo de soja se tornou o óleo comestível mais barato na China, substituindo em quantidades variáveis os óleos de palma, canola e girassol. As importações de óleos comestíveis diminuíram cerca de 30% durante o período de 2022–2025. Os preços baixos também criaram uma oportunidade para os produtores chineses de óleo comestível venderem no exterior, já que o país se tornou um exportador líquido de óleo de soja pela primeira vez em 2025.
A capacidade da China de absorver mais um aumento nas exportações do Brasil será um fator a ser observado no mercado global de soja. No ano passado, o Brasil exportou 108 milhões de toneladas de soja, das quais 85,4 milhões de toneladas foram destinadas à China. Para este ano, diversas agências projetam que as exportações brasileiras aumentem para 113–116 milhões de toneladas. Nos primeiros três meses de 2026, a China foi o principal destino das exportações brasileiras, mas sua participação caiu sete pontos percentuais em relação ao ano anterior.
O mercado chinês prevê outro grande influxo da soja brasileira no segundo trimestre de 2026. A oferta de soja e farelo de soja está temporariamente limitada em abril. As chegadas de soja à China atingiram o menor nível sazonal em março, com apenas 4 milhões de toneladas — sendo apenas 1,4 milhão de toneladas provenientes do Brasil — e algumas unidades de processamento foram paralisadas para manutenção. A expectativa é de que as chegadas de soja aumentem para 9–10 milhões de toneladas em abril e para 10–11 milhões de toneladas em maio, refletindo os embarques da nova safra brasileira. Autoridades chinesas flexibilizaram as inspeções de materiais estranhos em carregamentos da soja brasileira, que atrasaram o desembaraço aduaneiro em março.

A oferta de farelo de soja na China deverá aumentar acompanhando o ritmo de chegada da soja. Este ano, há menos potencial para que os preços baixos estimulem um aumento da demanda. Os produtores de suínos e aves da China estão sofrendo as consequências da rápida expansão do ano passado — impulsionada em parte pelo baixo preço do farelo de soja. Em 2026, os preços do farelo já caíram cerca de 12% desde o final de março, refletindo a queda de 25% nos preços da carne suína que começou em fevereiro. Os produtores de suínos, enfrentando grandes prejuízos financeiros, parecem estar reduzindo o número de animais e economizando no uso de farelo de soja. O aumento da oferta de farelo pode pressionar os preços ainda mais para baixo.
Os preços do óleo de soja na China estão entre o otimismo gerado pelas oscilações nos mercados de petróleo e a especulação sobre um possível evento El Niño, e a perspectiva pessimista de um aumento na oferta doméstica. Segundo relatos, os processadores chineses já reservaram vendas de óleo de soja para exportação durante os meses de verão.
Ainda não há sinais de reversão nas importações de soja por parte da China, apesar das perspectivas desfavoráveis e das margens de moagem estreitas ou negativas. Tudo indica que os compradores chineses voltaram a adquirir soja brasileira em larga escala para 2026. Há também a possibilidade de novas promessas de compra da soja dos EUA durante a cúpula Trump–Xi Jinping, prevista para maio. Permanece incerto o quanto os preços podem cair ainda mais na China e o que seria necessário para reverter o crescimento das importações.