Pontos Principais

O encontro entre Trump e Xi Jinping não impulsionou as vendas de soja dos EUA. Embora a China tenha prometido retomar as compras, a alta nos preços da soja em Chicago eliminou qualquer vantagem de custo dos EUA. Com safras recordes do Brasil e grandes estoques da China, analistas veem oportunidades limitadas para exportações significativas dos EUA a curto prazo. 

Safra Recorde do Brasil Limita Oportunidades para os EUA

A oferta abundante da safra recorde do Brasil manteve os preços da soja relativamente baixos. O Brasil produziu 169 milhões de toneladas de soja em 2025, um aumento de 14,5 milhões de toneladas em relação ao ano anterior. A CONAB prevê outra safra recorde de 177,67 milhões de toneladas. 

Fonte: Conab

A previsão é de que as exportações da nova safra comecem a ser enviadas em janeiro-fevereiro de 2026, mas podem não chegar à China até abril-maio, deixando uma pequena janela para compras comerciais chinesas da soja dos EUA, com previsão de chegada no primeiro trimestre de 2026. 

A estrutura forward dos preços no mercado de futuros da China indica expectativas de alta nos preços durante a janela janeiro-fevereiro, à medida que a oferta da soja brasileira da safra anterior diminui. Em 7 de novembro, o preço da soja importada na DCE (Dalian Commodities Exchange) da China era de CNY 3.715 para o contrato de dezembro de 2025, em comparação com CNY 3.758/tonelada para janeiro de 2026 e CNY 3.763/tonelada para fevereiro de 2026. 

O prêmio para fevereiro em relação a dezembro corresponde às expectativas de alta nos preços nos próximos meses. A estrutura forward dos preços então cai para os contratos de março-julho de 2026, refletindo a expectativa de que grandes volumes de soja brasileira da nova safra, que chegarão após a colheita no Hemisfério Sul, pressionarão os preços para baixo na primavera. O preço do contrato de junho de 2026, de CNY 3.691, ficou 7% abaixo do preço do contrato de fevereiro de 2026. 

Obs.: Preços de fechamento da soja nº 2 (não transgênica) em 7 de novembro de 2025 

Fonte: Dalian Commodity Exchange (DCE) da China 

O preço em Chicago atingiu o pico uma semana após o encontro entre Trump e Xi Jinping, já que poucas evidências concretas de compras chinesas surgiram. Dada a curta janela antes da safra brasileira no início de 2026 e o histórico da China em descumprir as metas de compra estabelecidas no acordo da Fase Um de 2020, alguns analistas dos EUA duvidaram que a China cumpriria seus compromissos de compra. 

Com a oferta abundante no mercado e os processadores chineses enfrentando margens negativas, correções adicionais descendentes nos preços dos EUA provavelmente serão necessárias para atrair compradores chineses. 

Comportamentos fora do mercado podem impedir que o mercado retorne aos fundamentos comerciais de oferta e demanda. A China pode optar por comprar soja dos EUA para formar reservas estatais como forma de cumprir sua promessa de compra. A estatal COSCO comprou três carregamentos de soja dos EUA um dia antes do encontro entre Trump e Xi Jinping, aparentemente como um gesto de boa vontade. 

Na semana seguinte, a COSCO realizou uma cerimônia de assinatura em Xangai para um compromisso de compra adicional de soja, cujo valor não foi divulgado. Pode ser do interesse da China evitar a queda nos preços da soja para aliviar a pressão descendente sobre os preços de sua própria soja doméstica, que também está em seu pico da temporada. 

A soja doméstica da China é utilizada predominantemente no processamento de alimentos, o que torna o mercado interno bastante isolado do mercado internacional. Ainda assim, os preços da soja importada exercem alguma influência sobre os preços domésticos.

Encontro Entre Trump e Xi Jinping Não Consegue Restaurar a Competitividade da Soja dos EUA 

Com a soja dos EUA excluída do mercado chinês por tarifas punitivas, o Brasil detinha um quase monopólio sobre as importações de soja da China antes do encontro entre Trump e Xi Jinping em 30 de outubro, cujo objetivo era ‘descongelar’ as relações comerciais entre EUA-China. 

O Brasil forneceu mais de 85% da soja importada pela China em setembro, e o preço médio por tonelada subiu por quatro meses consecutivos. Um artigo amplamente divulgado em sites chineses afirmou que compradores chineses se uniram em setembro para exigir preços mais baixos dos supostos especuladores brasileiros. 

O artigo alegou que a China pressionou a Argentina para suspender os impostos de exportação sobre a soja em setembro, a fim de dar aos compradores chineses maior poder de negociação com os vendedores brasileiros. 

Fonte: Global Trade Tracker

No encontro entre Trump e Xi Jinping, a China concordou em reduzir as tarifas punitivas e se comprometeu a comprar soja dos EUA. No entanto, a consequente alta nos preços futuros da soja em Chicago eliminou os incentivos chineses para comprar soja dos EUA e elevou ainda mais o custo da soja brasileira. 

Os preços futuros em Chicago estiveram oscilando em torno de USD 10 por bushel até meados de outubro, quando a expectativa em relação ao encontro entre Trump e Xi Jinping começou a crescer. Os preços se aproximaram de USD 11 por bushel no dia seguinte ao encontro e subiram para USD 11,20 no início de novembro. 

Fonte: CBOT, CEPEA

A alta nos preços nos EUA tornou a soja americana pouco competitiva em relação à soja brasileira para os compradores chineses. Estimativas dos custos de importação da soja para compradores chineses mostraram um desconto de quase USD 40/tonelada em meados de outubro para a soja originária dos portos do Noroeste Pacífico – PNW (em inglês, Pacific Northwest) dos EUA em comparação com a soja brasileira. Após 30 de outubro, os custos da soja dos EUA e do Brasil estavam próximos da paridade. Em 4 de novembro, a soja americana estava com um prêmio em relação à soja brasileira: USD 5/tonelada para a soja originária do Golfo dos EUA e USD 6/tonelada para a soja originária do PNW. 

Note: PNW = Pacific Northwest ports

Fonte: FeedTrade

Aumento nos Preços dos EUA Reduz a Demanda por Soja 

Além de perderem a vantagem de preço, o anúncio da China sobre a suspensão das tarifas punitivas ainda deixou a tarifa sobre a soja dos EUA 10 pontos percentuais acima da tarifa sobre a soja do Brasil e de outros países. Como prova da falta de competitividade de preços dos EUA no início de novembro, vários analistas citaram as compras chinesas de 20 carregamentos de soja brasileira – metade para embarque em dezembro e metade para embarque entre março e julho. 

O aumento nos preços dos EUA também reduzirá a demanda de compradores fora da China. As robustas compras de soja dos EUA por países fora da China em setembro foram impulsionadas por compradores sensíveis a preços, como Bangladesh, Paquistão e Egito. Em outubro de 2025, as inspeções de exportação de soja do USDA atingiram quase 4,5 milhões de toneladas, mas, sem exportações para a China, esse volume ainda representou menos da metade do registrado no ano anterior. Alguns desses compradores podem desaparecer com a alta dos preços nos EUA.

Os compradores chineses não foram beneficiados pelo encontro entre Trump e Xi Jinping, já que o custo da soja importada continuou a subir. O custo estimado da importação da soja brasileira para a China aumentou de USD 478/tonelada para USD 500/tonelada entre 15 de outubro e 6 de novembro. 

Os preços futuros da soja importada na DCE da China também subiu de CNY 3.602/tonelada (USD 506/tonelada) em 21 de outubro para CNY 3.715 /tonelada (USD 522/tonelada) em 7 de novembro.

O preço do farelo de soja na China também subiu após o encontro, o que o China Futures Daily atribuiu à alta dos preços da soja em Chicago. Os preços futuros do farelo de soja na DCE aumentou de CNY 2.893/tonelada para CNY 3.053 entre 21 de outubro e 7 de novembro. O aumento nos preços do farelo foi menor do que o aumento nos custos da soja importada. 

Os preços do óleo de soja permaneceram baixos, mantendo as margens de lucro negativas para os processadores chineses de soja, como tem sido há vários meses. A Futures Daily estimou margens de lucro negativas para os embarques de soja em dezembro de CNY –327/tonelada para a soja brasileira e CNY –200/tonelada para a soja americana.

As importações recordes do Brasil impulsionaram o volume mensal de processamento de soja na China para um recorde de 9-10 milhões de toneladas entre maio e agosto de 2025. A taxa de processamento permaneceu em torno de 9 milhões de toneladas mensais durante outubro e novembro, e a produção de farelo de soja foi de cerca de 7 milhões de toneladas por mês. 

No entanto, o grande volume de oferta de farelo pressionou os preços do farelo na China para baixo, e as margens de processamento foram negativas durante o verão e o outono. Mesmo assim, os embarques de soja do Brasil para a China permaneceram fortes. 

Com o Brasil ultrapassando o pico da sua temporada de comercialização, os embarques para a China diminuíram durante o período de agosto a outubro – embora ainda estivessem acima dos volumes do ano anterior. Os 21 milhões de toneladas acumuladas de soja brasileira embarcadas nesse período provavelmente constituirão a maior parte do fornecimento de soja da China no quarto trimestre de 2025, quando esses grãos chegarem ao país. 

O Futures Daily estimou que o Brasil poderá fornecer apenas 4 milhões de toneladas mensais durante novembro e dezembro. 

Fonte: Dados Alfandegários do Brasil 

Além disso, espera-se que vários milhões de toneladas de soja argentina cheguem à China durante dezembro ou janeiro. No início de novembro, a China havia suprido menos de 40% de suas necessidades de soja para dezembro e menos de 10% para janeiro de 2026. 

Os grandes estoques de soja importada (7,65 milhões de toneladas, 1,5 milhão de toneladas a mais que no ano anterior) e de farelo de soja (1,2 milhão de toneladas, o maior em 10 anos) acumulados nos meses anteriores pelos processadores chineses reforçarão a oferta durante o quarto trimestre, mas os analistas preveem uma possível lacuna no fornecimento durante dezembro de 2025 e o primeiro trimestre de 2026. 

Fred Gale

Fred Gale is an independent agricultural economist specializing in China. He holds a PhD in Economics and published dozens of reports and articles on China’s agricultural markets, trade, and policies during 36 years as a research economist in USDA’s Economic Research Service. Since retiring he continues writing his “Dim Sums” blog, long recognized as an authoritative source of information and analysis of Chinese agricultural markets and policies.
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