Pontos Principais
As iniciativas de SAF e SMF estão ganhando força em todo o mundo. Tanto o Canadá quanto o Brasil avançaram em políticas de suporte ao combustível de aviação sustentável, enquanto novos projetos e pesquisas destacaram o papel crescente de matérias-primas como milho, cana-de-açúcar e resíduos agrícolas. À medida que a produção se expande, o uso direcionado de SAF pode proporcionar benefícios climáticos expressivos, já que apenas 2% dos voos são responsáveis por 80% do aquecimento associado aos rastros de condensação.
Diante da necessidade e do desejo de reduzir a pegada de carbono dos transportes aéreo e marítimo, empresas do setor, produtores de biocombustíveis e governos de todo o mundo estão impulsionando com vigor o desenvolvimento de sistemas de combustível de aviação sustentável (SAF) e combustível marítimo sustentável (SMF). Esses esforços devem criar um novo e importante mercado para o etanol de milho e de cana-de-açúcar.

Canadá Estabelece Meta de Uso de 10% de SAF Até 2030
Um exemplo claro ocorreu em agosto, quando o governo canadense divulgou um projeto para o desenvolvimento de uma indústria de combustível de aviação sustentável (SAF) no Canadá. O projeto da Transport Canada estabelece uma estratégia para alcançar a meta do Plano de Ação Climática da Aviação de utilizar 10% de SAF até 2030. Para que essa meta seja alcançada, é necessário cerca de 1 bilhão de litros de SAF, provenientes de uma combinação de produção doméstica e fornecimento internacional.
“O Canadá dispõe de matéria-prima, expertise em refino, capacidade de inovação e companhias aéreas domésticas para criar uma indústria líder mundial que contribua para suprir suas próprias necessidades e as de outras jurisdições”, afirmou a Transport Canada em seu projeto.
Fred Ghatala, presidente da Advanced Biofuels Canada, recebeu de braços abertos o documento governamental há muito aguardado. “O que o projeto traz — e sua contribuição mais importante — é o impulso. Ele sinaliza a atenção do governo canadense à essa questão importante”, disse ele.

Obs.: O cenário de produção máxima de SAF é baseado na disponibilidade de matéria-prima e na prontidão tecnológica prevista. A análise sugere que o potencial de produção doméstica de SAF no Canadá poderá atingir até 1,36 bilhão de litros até 2030, com o processo HEFA predominando na oferta a curto prazo e os processos PTL e GFT ganhando crescente importância até 2050. Mas, é provável que ainda sejam necessárias importações para alcançar as metas de descarbonização a longo prazo.
Fonte: Transport Canada
Brasil Assina Regulamentação para o SAF
Também em agosto, o Brasil assinou um decreto regulamentando seu Programa Nacional de Combustível de Aviação Sustentável, ou ProBioQAV, estabelecendo a regulamentação para a redução de emissões SAF do país e criando o que o governo diz ser o primeiro mecanismo de book-and-claim (registro e reivindicação) do mundo incorporado às políticas públicas.
A regulamentação ProBioQAV estabelece regras que abrangem a produção, certificação, comercialização e rastreabilidade do SAF, assim como o cumprimento de metas de redução das emissões de gases de efeito estufa para o setor de aviação doméstica do Brasil.
Austrália: Projeto de SAF Vai Utilizar Resíduos de Cana-de-Açúcar
A Nextchem, por meio de sua subsidiária MyRechemical, foi contratada pela SKY Renewables Burdekin — uma empresa australiana de desenvolvimento de projetos focada na produção de SAF — para fornecer o licenciamento, o pacote de design do processo (PDP) e serviços de engenharia referentes à seção de gás de síntese do Projeto Lion, na região de Burdekin, norte de Queensland (Austrália).
O projeto utilizará resíduos de cana-de-açúcar disponíveis localmente como matéria-prima para produzir gás de síntese purificado de grau químico, por meio da tecnologia de gaseificação circular da NX.
Esse gás de síntese será então utilizado para conversão subsequente em SAF e diesel renovável, mediante soluções de terceiros. Em plena capacidade operacional, o Projeto Lion tem potencial para produzir até 125 mil toneladas de SAF por ano.
Ao utilizar as pontas e a palha da cana-de-açúcar — biomassa residual frequentemente queimada no campo —, o projeto demonstra como a gaseificação viabiliza a transformação de resíduos agrícolas em matéria-prima intermediária para combustíveis de baixo carbono, enquanto apoia o uso mais sustentável dos recursos locais de biomassa.

Resíduo de cana-de-açúcar
Fabio Fritelli, diretor-geral da Nextchem, afirmou: “Ao alavancar nossa tecnologia de gaseificação, podemos sustentar a conversão de resíduos de cana-de-açúcar disponíveis localmente em combustíveis de baixo carbono, combinando soluções de economia circular do carbono com as necessidades de descarbonização da aviação”.
SAF nos Grandes Aeroportos
Divulgado em agosto, um relatório do grupo independente Força Tarefa pelo Ar Limpo – CATF (em inglês, Clean Air Task Force) constatou que direcionar o SAF para um número reduzido de aeroportos de alto impacto — em vez de distribuí-lo por toda a rede de aviação — pode aumentar de forma significativa os benefícios do combustível para o clima e a saúde pública, enquanto a oferta global continua a crescer.
O relatório, intitulado ”Maximizando os Benefícios Climáticos do Combustível de Aviação Sustentável por meio da Alocação Direcionada”, analisou a atividade de voos em 2024 nos principais aeroportos dos EUA e da Europa para identificar onde o uso direcionado de SAF teria o maior impacto.

Em parceria com a Estuaire, empresa de dados climáticos voltada para a aviação, a CATF analisou 16,6 milhões de voos em grandes aeroportos dos EUA e da Europa em 2024, examinando a formação de rastros de condensação, assim como as emissões de material particulado e óxidos de nitrogênio durante o pouso e a decolagem.
A análise constatou que apenas 2% dos voos geram 80% do aquecimento associado aos rastros de condensação. Isso significa que uma abordagem direcionada pode proporcionar a maior parte dos benefícios climáticos sem exigir uma grande parcela da oferta global de SAF, que representava apenas 0,7% do mercado de combustível de aviação em 2025.

Fonte: CATF