Pontos Principais
Produção de milho no Brasil deve chegar a quase 100 milhões de toneladas. Isso deve representar um acréscimo de cerca de 10% em relação à última safra, impulsionado em boa parte pela forte performance da segunda safra no Centro-Oeste. Investimentos contínuos em maquinário avançado estão ajudando a aumentar a produtividade.
Safra de Milho no Brasil Deve Ser Robusta
Depois de passar por um período difícil em 2024, com secas no Centro-Oeste, os produtores de grãos finalmente respiram aliviados neste ano. São esperados bons resultados especialmente para a safrinha— a segunda safra de milho —, que deve atingir quase 100 milhões de toneladas, cerca de 10% a mais do que no ano passado, segundo a Conab.
“Algumas consultorias apontam para números até um pouco maiores, mas mesmo as projeções dos órgãos oficiais, como a Conab, naturalmente mais conservadoras, indicam um resultado robusto”, diz André Sanches, pesquisador de milho do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP.

Fonte: Conab
Somando o resultado da primeira safra — cuja colheita se encerra geralmente no final de março no Centro-Oeste —, a produção total de milho no Brasil deve chegar a 126,8 milhões de toneladas, aproximando-se do recorde de 2023.

Source: Conab
Condições Ideais de Clima Favorecem Lavoura
O clima tem colaborado com o avanço da safra atual. No Centro-Oeste, principal região produtora de grãos do país, as chuvas ocorreram no momento certo, especialmente em abril e maio. A regularidade das precipitações garantiu um bom nível de umidade no solo, favorecendo o florescimento das lavouras e o enchimento dos grãos.
“Não é comum chover em maio, mas neste ano fomos abençoados com a chuva. Isso foi excelente para a lavoura”, diz o produtor rural Zilto Donadello, proprietário de uma fazenda de 420 hectares no Mato Grosso, nas proximidades de Sinop, um dos principais polos do agronegócio no país.

O produtor rural Zilto Donatello e seu filho, Bernardo. Publicity photo.
Não só choveu, como choveu na quantidade ideal — com um acúmulo de chuva de mais de 150 milímetros —, ideal para proporcionar um bom desenvolvimento da cultura.
“Devemos ter bons números de produtividade, ao redor de pelo menos 8 toneladas por hectare”, diz Donatello. Isso é acima da média regional, em que a produtividade tem se situado em 6 toneladas por hectare, segundo a Conab. “Esse tipo de resultado se deve também a investimentos em maquinário de ponta que fizemos nos últimos quatro anos”

Source: Conab
Equipamentos Avançados Aumentam Produtividade
A adoção de equipamentos mais avançados — capazes de otimizar a produção e reduzir perdas — ganhou impulso significativo nos últimos anos.
Em 2021, quando o preço do milho superou R$ 90 por saca (USD 16.36 por saca) — cerca de 55% acima da média de 2020 e 35% maior que os valores vigentes hoje —, os produtores rurais mais capitalizados direcionaram parte dos rendimentos para a modernização do maquinário. Isso também está colaborando para a produtividade dessa safra, que deve chegar a quase 6 mil quilos por hectare, cerca de 8% amais do que na última temporada.

Source: Conab
Safra Sustenta Crescente Demanda Doméstica
Mais de 70% da produção deve ser consumida no mercado interno, de acordo com a Conab – o que está longe de ser uma surpresa.
O consumo doméstico tem aumentado de forma constante, com o milho sendo direcionado para setores que vão de granjas, que utilizam o insumo como componente da ração, à indústria de biocombustíveis. O excedente costuma ser exportado.

Fonte: Conab
Cerca de 54% do milho produzido no Brasil é utilizado na alimentação animal, especialmente de aves e suínos, de acordo com a Embrapa.
Em Santa Catarina, por exemplo, Estado líder na produção de suínos e segundo colocado na criação de frangos no país, cerca de 80% do milho consumido é destinado à avicultura e suinocultura, segundo o Instituto de Planejamento e Economia Agrícola de Santa Catarina.
Hoje, o Brasil é o segundo maior produtor mundial de frango, atrás apenas dos Estados Unidos —e o maior exportador global. A crescente demanda externa pelo frango produzido no Brasil, que apresenta preços competitivos, também tem contribuído para a expansão do consumo interno de milho.

Fonte: Comex
Ao mesmo tempo, outras indústrias, como a de etanol de milho, vem se expandindo. Nesta safra, a fabricação do biocombustível deve absorver cerca de 19 mil toneladas da produção total de milho no país, em média 200% ao mais do que em 2020, segundo um estudo da Universidade de Illinois, dos Estados Unidos.
De acordo com a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), existem atualmente 25 usinas de etanol de milho em operação e outras 15 em construção. Como resultado, a demanda por milho para a produção de etanol deve aumentar.
Nesta safra, o Brasil deve produzir cerca de 8,2 bilhões de litros de etanol de milho. Há dez anos, a produção era de aproximadamente 140 milhões de litros, segundo a Conab e o Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea). Isso demonstra a impressionante expansão do mercado.

Preços Ainda São Incógnita
A expectativa de uma safrinha volumosa, com a colheita se estendendo até setembro ou outubro no Centro-Oeste, tem gerado incertezas quanto à formação de preço. Alguns produtores têm até evitado usar termos como “supersafra”, receosos em relação ao efeito dessas expressões no mercado.
Para quem acompanha o setor com menos atenção, a cautela pode parecer excessiva. Mas levando-se em conta as incertezas atuais do setor, não é difícil compreender o temor dos produtores.
Os produtores estão acompanhando de perto indicadores como a safra americana. As projeções do USDA indicam uma produção de 15,8 bilhões de bushels — 6% a mais do que na última temporada —, com uma área plantada de mais de 3,7 milhões de hectares, a maior da década. Caso isso seja confirmado, a oferta robusta dos Estados Unidos poderá ajudar a pressionar os preços internacionais.
A guerra comercial entre a China e os Estados Unidos também representa um dos fatores que podem influenciar as cotações. “Nos próximos meses, deve ficar mais claro se haverá novas mudanças nas tarifas e qual será a disposição da China em comprar mais grãos do Brasil”, diz Sanchez. “Até lá, qualquer previsão é prematura”.