Pontos Principais
Os preços do alumínio dispararam devido às tensões no Oriente Médio. As cotações em alta podem incentivar exportadores como a China a expandir sua presença global, embora limitações estruturais devam restringir os ganhos. O Brasil, apesar de sua grande base de produção, deve priorizar o abastecimento interno em meio às condições restritivas do mercado e à escassez de recursos.
Com o conflito no Oriente Médio se arrastando sem uma resolução clara, os principais players globais do setor de alumínio estão reavaliando suas estratégias de mercado. Os preços em alta devem incentivar o aumento das exportações de países com alguma capacidade ociosa, como a China.
Os preços do alumínio têm oscilado acima de USD 3.500 por tonelada, atingindo os níveis mais altos em quatro anos. Em março, o metal fechou a USD 3.585 por tonelada na Bolsa de Metais de Londres (LME), em um aumento de 17,3% em relação a dezembro do ano passado.

Fonte: LME
A China deve expandir sua participação no mercado global de alumínio acompanhando a subida de preços, embora os ganhos provavelmente sejam limitados por restrições como o limite de produção anual de 45 milhões de toneladas imposto pelo governo. O maior produtor mundial deverá aumentar as exportações em cerca de 10% este ano em comparação com 2025, de acordo com consultorias como a Wuchan Zhongda Futures e a Aladdiny.
Os volumes adicionais, no entanto, não devem aumentar significativamente a oferta global. As exportações da China, de cerca de 360 mil toneladas por ano, estão bem distantes dos patamares alcançados por países como o Canadá, a Índia e o Bahrein — fortemente afetado pela guerra no Golfo Pérsico —, que lideram os embarques mundiais.

Fonte: UN Comtrade
Brasil Protege Mercado Interno
O Brasil, um dos maiores produtores mundiais de bauxita e alumínio primário, deve concentrar seus esforços no atendimento da demanda interna — e por uma razão clara. A capacidade produtiva doméstica limita avanços mais expressivos nas exportações, especialmente em um cenário de instabilidade nas cadeias globais de produção e comércio.
Atualmente, o Brasil produz cerca de 1,1 milhão de toneladas de alumínio primário por ano, volume que se soma a aproximadamente 1 milhão de toneladas provenientes de material reciclado. O consumo interno, por sua vez, gira em torno de 1,9 milhão de toneladas, segundo a Associação Brasileira do Alumínio (ABAL), o que indica um quadro de oferta apertada.
Embora a produção de alumínio venha crescendo nos últimos anos, ainda está distante dos níveis registrados nos anos 2000, durante o boom das commodities, quando a forte demanda dos países emergentes impulsionou os preços das matérias-primas.

Fonte: ABAL.
As exportações de alumínio, por sua vez, têm acompanhado variáveis como a disponibilidade de alumínio no mercado interno, o custo de energia e a demanda doméstica.

Fonte: Comex
“Num contexto de grande volatilidade no mercado internacional — que tende a acirrar a disputa global pelo metal — nossa maior preocupação não é aumentar exportações e sim garantir a segurança no suprimento de metal no mercado doméstico”, diz Janaina Donas, presidente-executiva da ABAL, em entrevista ao CZ App.

Janaina Donas, da ABAL. Foto divulgação ABAL.
O Brasil tem condições de aumentar a produção de alumínio e expandir as exportações para capitalizar o aumento de preços global?
O Brasil tem, sim, condições estruturais para isso. O país reúne uma série de ativos estratégicos que asseguram atendimento à demanda doméstica e o posicionamento do país na cadeia global de suprimentos. O Brasil é o quarto maior produtor mundial de bauxita e o terceiro maior produtor de alumina. Temos uma cadeia verticalizada, da mina ao produto acabado, o que é um diferencial competitivo raro no cenário global.

Fonte: US Geological Survey
Além disso, os índices de uso de alumínio reciclado no Brasil estão entre os maiores do mundo. Cerca de 60% do consumo de produtos de alumínio no Brasil já vem da reciclagem, enquanto a média global gira em torno de 28%.
A reativação de parte da capacidade reduzida no passado pode elevar a produção primária para 1,3 milhão de toneladas por ano. Somada à produção secundária, oriunda da reciclagem, isso deve colocar o Brasil em situação de autossuficiência no abastecimento de metal.
Mas para que possamos ir além disso e de fato expandir a capacidade de forma mais significativa são necessários novos investimentos em smelters, seja com a ampliação das plantas existentes ou a construção de novas unidades.

Lingotes de alumínio. Foto divulgação ABAL.
E é aqui que está o nó: esses projetos têm um horizonte de maturação longo. Mesmo em relação a um projeto que já se encontra em estágio avançado de planejamento, o tempo para sua viabilização é de cerca de cinco anos.
Investimentos desse porte dependem de custo competitivo de energia, segurança jurídica, previsibilidade regulatória e ambiente de negócios estável. São decisões estratégicas de longo prazo que as empresas tomam com base em perspectivas que vão muito além de um conflito geopolítico.
E a maior parte da produção brasileira atende o mercado interno, não?
Sim. O Brasil consome cerca de 1,88 milhão de toneladas de produtos transformados de alumínio por ano e nossa produção primária atual, de 1,1 milhão de toneladas, ainda não é suficiente para atender sozinha essa demanda doméstica. A autossuficiência só se mantém quando somamos a produção secundária, oriunda da nossa cadeia de reciclagem, uma das mais expressivas do mundo.
Portanto, num contexto de grande volatilidade no mercado internacional — que tende a acirrar a disputa global pelo metal, tanto de fonte primária quanto secundária — nossa maior preocupação no momento não é aumentar exportações. É garantir a segurança no suprimento de metal para o nosso mercado doméstico e fortalecer as vantagens competitivas que nos permitem manter essa autossuficiência.
Isso é especialmente relevante porque o Brasil já enfrenta um problema concreto nessa direção: as exportações de sucata de alumínio cresceram 177% entre 2022 e 2024, direcionadas principalmente à Ásia.

Fonte: Comex.
Isso gerou um déficit de cerca de 100 mil toneladas de sucata no mercado nacional entre 2023 e 2024. Ao mesmo tempo em que o mundo tenta se abastecer de alumínio, nós estamos exportando um insumo estratégico que faz falta aqui dentro. Esse é um dos nossos focos prioritários de ação.
Dito isso, é verdade que a instabilidade no Oriente Médio coloca o Brasil no radar de mercados que historicamente dependiam do alumínio da região. Há um movimento concreto dos Estados Unidos sinalizando interesse em parcerias no âmbito dos minerais estratégicos, e supostamente o alumínio poderia fazer parte dessa agenda, assim como já integra as listas de materiais críticos da União Europeia, do Canadá, Reino Unido Austrália.

Chapas de alumínio. Foto divulgação ABAL.
Mas a sinalização, por ora, aponta mais para produtos na base da cadeia do que para alumínio primário ou manufaturados com maior valor agregado.
E aqui está o ponto essencial: o Brasil não pode se contentar em ser fornecedor apenas de matéria-prima, justamente em um momento em que o mundo mais precisa de produto elaborado. A diferença de valor agregado ao longo da cadeia é enorme, o que impacta empregos, renda e desenvolvimento regional. Nossa prioridade, antes de pensar em exportar mais, é garantir que metal suficiente para abastecer o nosso mercado.