Pontos Principais

O acordo entre o Mercosul e a União Europeia abre oportunidades para o agronegócio brasileiro. Assinado em janeiro, o tratado promete ampliar o acesso às exportações, apesar da incerteza quanto ao seu cronograma de implementação. O Brasil já se prepara para aumentar os embarques de produtos como café e frutas, atualmente tarifados em até 14%.

Questionamentos recentes sobre a implementação do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia não abalaram o ânimo dos produtores e exportadores brasileiros. Assinado em 17 de janeiro, após 25 anos de negociações, o acordo vai permitir a eliminação gradual das tarifas sobre uma série de alimentos e produtos manufaturados.

A questão que permanece é quando o tratado entrará em vigor. O Parlamento Europeu votou recentemente a favor de uma revisão jurídica do texto. Enquanto a Comunidade Europeia pressiona por uma solução rápida, o Mercosul se prepara para um novo leque de oportunidades de exportação que deve surgir com o acordo. 

Embora algumas reduções tarifárias para produtos agrícolas e pecuários estejam restritas a cotas anuais, o tratado é visto com otimismo pelo agronegócio. Sem essas concessões, o acordo dificilmente teria se concretizado, segundo diplomatas brasileiros familiarizados com o assunto.

No caso do açúcar, até 180 mil toneladas por ano poderão ser exportadas sem tarifas, o que corresponde a menos de 10% das importações da UE. Já em relação à carne bovina, a cota permitida equivale a menos de 2% do consumo total no bloco europeu, de acordo com a Câmara de Comércio Brasil-França.

Gado na França

Desafios à Competitividade da Agricultura Europeia

Questões relativas à competitividade da agricultura europeia, geralmente dependente de subsídios, estão no centro do debate. Enquanto os países do Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai) têm aumentado a produtividade agrícola, a realidade na maioria dos países europeus é um tanto diferente.

O milho, sujeito a cotas de exportação para a UE sob o acordo, é um bom exemplo. A produtividade da cultura se manteve estável na Europa após anos de investimentos constantes, enquanto no Brasil vem apresentando avanços significativos. O desenvolvimento de cultivares adaptados ao clima tropical, o uso crescente de tecnologia e as boas práticas agrícolas são responsáveis por esses resultados positivos. 

Fonte: Conab, USDA

Na pecuária, o cenário é semelhante. A produção de carne tem apresentado uma tendência de queda na UE, pressionada por custos mais elevados, preocupações ambientais e margens de lucro mais apertadas.

Fonte: USDA

Isso significa que o aumento das importações de carne a preços mais competitivos do Mercosul pode representar um desafio adicional para os produtores europeus.

Oportunidades para o Brasil

Para o Brasil, por outro lado, o acordo comercial com a UE representa uma oportunidade para diversificar as exportações, reduzindo a dependência da China. Hoje, quase metade dos embarques agrícolas são destinados a portos chineses. A UE, por sua vez, responde por cerca de 15% das exportações do agronegócio brasileiro, com espaço para maior crescimento. 

Fonte: Comex

Alguns produtos, como o café e as frutas, representam algumas das maiores oportunidades para aumentar as exportações para a UE.

Atualmente, as vendas de café torrado, moído e solúvel para o bloco econômico estão sujeitas a tarifas que variam de 7,5% a 9%. Sob o tratado, haverá uma redução gradual das tarifas até que elas cheguem a zero dentro de quatro anos.

A UE representa o quarto maior destino para as exportações de café solúvel, que possui maior valor agregado.

“Quando as tarifas de importação na Europa entraram em vigor há mais de 15 anos, houve uma redução de 30% nas vendas para o continente”, afirma Aguinaldo José de Lima, diretor da Indústria Brasileira de Café Solúvel. “Com a eliminação das tarifas, as exportações devem aumentar, embora isso deva levar alguns anos devido às disputas sobre o acordo comercial na UE”.

Fonte: Comex

Os produtores brasileiros também estão preocupados com o avanço da concorrência internacional, especialmente do Vietnã, um dos maiores produtores de café do mundo.

Desde a entrada em vigor do acordo de livre comércio entre Hanói e a UE em 2020, as exportações de café vietnamita para o bloco europeu dispararam. Os embarques cresceram aproximadamente sete vezes entre meados de 2020 e março de 2025, segundo o governo vietnamita.

A expectativa é que o Brasil alcance uma posição equivalente à do Vietnã nas exportações para a UE através da implementação do acordo de livre comércio.

Aumento nas Exportações de Frutas

No caso das frutas, que estão sujeitas a tarifas de até 14% na UE — como é o caso da uva e do limão — os ganhos também devem ser significativos. O bloco europeu já ocupa uma posição central nas importações de frutas brasileiras.

A Holanda, importante centro de distribuição na Europa, costuma ser o principal destino das frutas brasileiras. Até 2025, os embarques para o país representaram 41,6% da receita gerada, com destaque para o melão, melancia, manga, limão e uva, segundo a Comex.

Fonte: Comex

Mas existem alguns desafios a serem superados. Mesmo com grandes produtores — especialmente no Vale do Rio São Francisco, na Bahia — a fruticultura ainda tem uma participação limitada na agenda de exportação do agronegócio brasileiro, liderada por carros-chefe da agricultura e da pecuária. Historicamente, a produção de frutas tem sido voltada principalmente para o consumo doméstico.

Fonte: Comex

A redução das tarifas de exportação para a UE tende a tornar os preços dos produtos brasileiros mais competitivos no mercado europeu, o que deve impulsionar a cadeia de exportação do setor.

O mercado, no entanto, enfrenta alguns gargalos. Um dos principais diz respeito à logística. A produção de frutas em larga escala no Brasil geralmente se concentra longe dos principais portos, o que aumenta os custos de transporte.

Além disso, o abastecimento costuma ser irregular, dependente do clima e limitado pela disponibilidade de tecnologia. A irrigação, por exemplo, ainda não é acessível a muitos produtores.

O Brasil e outros países do Mercosul também enfrentam a concorrência de participantes já consolidados no mercado europeu, como o Peru e o Chile, que já são fornecedores de frutas como abacate, mirtilo, manga, cítricos, uvas e maçãs. 

Outro setor que deverá se beneficiar do acordo de livre comércio é a avicultura. Atualmente, as exportações para países europeus atingem aproximadamente 99 mil toneladas por ano. 

Fonte: Comex

Esse número pode parecer significativo, mas é muito menor do que o total embarcado para o Oriente Médio (1,4 milhão de toneladas em 2025) e para países como Japão e China, que importaram mais de 450 mil toneladas de aves brasileiras no ano passado, segundo a Comex.

Da receita total gerada pelas exportações de aves em 2025, de USD 8,8 bilhões, os países europeus representaram menos de 5%.

O regime de exportação de aves definido pelo acordo comercial com a UE tem sido visto com bons olhos pelos frigoríficos brasileiros. Afinal, a cota de 180 mil toneladas por ano, isenta de tarifas, equivale a quase o dobro do que o Brasil exporta atualmente para a UE.

É verdade que as cotas definidas no acordo se aplicam a todos os países do Mercosul em conjunto. O Brasil, no entanto, possui uma clara vantagem competitiva: o país lidera as exportações de aves na região. No ano passado, mais de 5 milhões de toneladas foram embarcadas dos portos brasileiros, segundo a Comex. 

A Argentina, por sua vez, costuma exportar volumes bem mais modestos, inferiores a 200 mil toneladas. Este ano, os embarques são estimados em cerca de 150 mil toneladas, segundo o USDA. 

Em geral, os avicultores, assim como outros segmentos do agronegócio, permanecem cautelosos apenas em relação a uma questão. Ninguém se atreve a prever quando o acordo comercial entrará em vigor. Mas uma coisa é certa: o tratado deve abrir uma série de oportunidades que o agronegócio brasileiro está pronto para aproveitar.

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Carla Aranha

Carla joined CZ in 2022 having previously worked at Exame and Valor, leading economic media outlets in Brazil, where she developed projects and news coverage focusing on the agribusiness and commodities markets. Carla is responsible for writing content, providing interesting article´s subjects and reports as well as producing press releases together with the marketing team.

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