Pontos Principais

 As exportações brasileiras de feijão estão em plena expansão, impulsionadas especialmente pela forte demanda da Índia. Os embarques saltaram 91% em 2025, ultrapassando 500 mil toneladas. Outras 256 mil toneladas já foram exportadas até julho deste ano, mantendo o Brasil no caminho para mais um ciclo de forte performance. Para atender à crescente demanda — especialmente pelo feijão-mungo-preto, bastante utilizado na culinária indiana —, os produtores estão ampliando o cultivo em polos agrícolas importantes, como o Mato Grosso e Tocantins.


Depois de um recorde nas exportações de feijão em 2025, quando os embarques atingiram 533,2 mil toneladas, quase o dobro do volume registado em 2024, o Brasil está prestes a conquistar mais um resultado expressivo neste ano. Entre janeiro e julho, as exportações somaram cerca de 256 mil toneladas, em um aumento de 17% em relação ao mesmo período do ano passado, segundo a Comex.

“É possível alcançar novamente um volume expressivo, mas não dá para assegurar que haverá um novo recorde. Isso depende de vários fatores, como oferta, demanda e o comportamento dos preços internacionais”, diz Marcelo Lüders, presidente do Instituto Brasileiro dos Feijões e Pulses (Ibrafe), em entrevista ao CZapp.

A Índia deve permanecer como a líder do ranking dos principais destinos das exportações brasileiras. O país é um dos maiores consumidores e produtores mundiais de feijão, seguido pelo Brasil e Mianmar.

 Fonte: FAOSTAT

Em 2025, o Brasil embarcou cerca de 318,5 mil toneladas de feijão para os portos indianos — equivalente a quase 60% das exportações totais —, em um aumento de 91% em relação a 2024. Esse resultado foi influenciado por questões que vão de quebras de safra na Índia ao aumento da oferta no Brasil.

Nos últimos anos, o Brasil começou a investir mais em variedades como o feijão-mungo-preto, que segue em forte demanda na Índia. O alimento é amplamente utilizado na culinária, em pratos como massas e ensopados e no preparo de farinhas.

No Brasil, a produção do feijão-mungo-preto vem avançando em Estados como o Tocantins e Mato Grosso. O cultivo é realizado na segunda safra, ao lado de culturas como o milho, gergelim e sorgo.

O preço no mercado internacional compensa. Em média, o feijão é embarcado a mais de USD 800 por tonelada, quase três vezes mais do que o valor pago pelo milho. Com a oferta restrita a alguns polos agrícolas globais e a demanda em alta, em função do alto teor nutritivo do grão e à valorização de alimentos proteicos de origem vegetal, os valores vêm se mantendo em patamares relativamente altos.

Fonte: Comex

A maior demanda por pulse foods —- grãos com alto teor de proteína e nutrientes como o feijão e grão-de-bico —, também ajuda a manter as cotações elevadas, embora tenha havido flutuações ao longo dos anos. As exportações brasileiras de pulse foods cresceram 30% em 2025 em comparação ao ano anterior, atingindo cerca de USD 448,1 milhões, segundo a Comex.

O feijão, rico em proteína e ferro, vem puxando essa onda. “O Brasil vem direcionando parte de sua produção ao mercado internacional”, diz Lüders.

Conversamos com ele sobre o boom das exportações, os principais mercados e as perspectivas para o setor de feijão do Brasil.

Marcelo Lüders. Foto divulgação.

Por que as exportações de feijão aumentaram tanto em 2025?

O principal fator foi o forte crescimento dos embarques de feijão-mungo-preto para a Índia. O Brasil passou a ocupar rapidamente um espaço relevante como fornecedor, beneficiado pela demanda indiana, a disponibilidade do produto e a possibilidade de produzir em janelas diferentes daquelas de outros países.

Fonte: Comex

Em 2025, as exportações brasileiras de feijão alcançaram mais de 500 mil toneladas. Foi uma mudança importante: o Brasil deixou de exportar apenas excedentes ocasionais e passou a desenvolver parte de sua produção de maneira mais direcionada ao mercado internacional.

Fonte: Comex

Esse resultado também reflete uma transformação construída ao longo dos últimos 15 anos. Nesse período, o Brasil saiu de aproximadamente três variedades com presença relevante no mercado internacional para mais de 20 variedades exportáveis. Em pouco tempo, poderemos chegar a 25.

Neste ano, o Brasil deve repetir o resultado de 2025?

É possível alcançar novamente um volume expressivo, mas não seria prudente assegurar que o recorde de 2025 será repetido. A estimativa do IBRAFE para 2026 está mais próxima de 420 mil toneladas, embora o resultado final dependa principalmente das compras da Índia, dos preços internacionais, da oferta dos países concorrentes e do ritmo dos embarques durante o segundo semestre.

Fonte: Comex

O mercado indiano pode alterar rapidamente tarifas, regras de importação e decisões de compra. Por isso, o resultado de 2025 deve ser considerado uma referência importante, mas não um volume automaticamente garantido para os anos seguintes.

A dependência excessiva de um único destino também representa um risco. O Brasil precisa manter a Índia como parceiro estratégico, mas simultaneamente deve desenvolver mercados como a China, Paquistão, Europa, América Latina, Oriente Médio, Sudeste Asiático e Norte da África.

No início do ano, autoridades brasileiras e indianas discutiram um acordo fitossanitário para abrir o mercado indiano para o feijão-guando brasileiro. As negociações avançaram?

Ainda não. O tema continua em negociação entre o governo brasileiro e o indiano. O feijão-guando está incluído em uma pauta mais ampla de produtos agropecuários discutida entre os dois países, mas ainda não foi concluído um acordo fitossanitário. A Índia, no entanto, já é um mercado estratégico para o Brasil, especialmente para o feijão-mungo-preto.

Há negociações com outros países?

Sim. O Brasil trabalha continuamente para ampliar o número de países autorizados a receber nossos feijões e pulse foods. Muitas dessas tratativas fazem parte de negociações mais amplas, envolvendo vários produtos do agronegócio e critérios de reciprocidade comercial.

Fonte: Comex

Diante das incertezas climáticas, guerras, das restrições comerciais e mudanças nas rotas internacionais de abastecimento, a estratégia brasileira é estabelecer acordos com o maior número possível de países.

Uma abertura de mercado não significa que haverá exportações imediatamente. Significa que, quando surgir demanda ou necessidade, o Brasil já terá a possibilidade formal de exportar. Isso reduz o tempo de resposta e dá maior segurança tanto para o país comprador quanto para a cadeia produtiva brasileira.

A Índia representa o maior mercado do Brasil, mas onde mais você vê mais oportunidades de crescimento? O Paquistão e a China poderiam se tornar destinos importantes das exportações nos próximos anos?

Sim. O Paquistão pode representar uma boa oportunidade, especialmente por ser um consumidor tradicional de pulses. Mas é um mercado sensível a preços, disponibilidade de moeda, decisões governamentais e concorrência de fornecedores já consolidados.

Fonte: Comex

A China pode representar uma oportunidade ainda maior e mais diversificada, sobretudo para feijão-mungo-verde, feijão-adzuki e produtos destinados a brotos, amidos, ingredientes e proteínas. O mercado chinês, porém, ainda não está formalmente aberto aos feijões brasileiros (nota: um acordo fitossanitário entre o Brasil e a China que permita a exportação de feijão ainda está pendente).

Os produtores brasileiros estão aumentando o cultivo das variedades mais requisitadas no exterior?

Sim, principalmente no caso do feijão-mungo-preto. O crescimento das exportações despertou interesse e estimulou o cultivo dessas variedades.

O Brasil viveu uma grande evolução. Há 15 anos, tínhamos cerca de três variedades exportáveis. Hoje, já são mais de 20 e, em algum tempo, poderemos chegar a 25. Isso permite atender a mercados muito diferentes.

 

Se a Europa sinalizar demanda por feijão-alubia, navy, cranberry slow darkening ou dark red kidney, por exemplo, Brasil possui condições de produzir. Se os mercados orientais precisarem de feijão-mungo-verde ou feijão-adzuki, também podemos atender. Para a América Latina, temos capacidade de fornecer feijão-preto, como já acontece, além de outras variedades.

Essa flexibilidade é uma das principais vantagens competitivas brasileiras, mas a produção precisa crescer acompanhada de demanda real e relações comerciais confiáveis.

O Centro-Oeste tem se dedicado mais às variedades para exportação?

Sim. O avanço das variedades destinadas à exportação ocorre principalmente no Centro-Oeste e em áreas do Matopiba (região agrícola formada pelo Tocantins e partes do Maranhão, Piauí e Bahia), com destaque para o Mato Grosso, Goiás, Tocantins, Bahia, Maranhão e Piauí.

Fonte: Conab

Essas regiões oferecem escala, mecanização, tecnologia e diferentes possibilidades de inserir feijão e pulses no sistema produtivo. Também permitem aproveitar janelas entre culturas de maior extensão, como soja, milho e algodão.

Por fim, o que ainda precisa melhorar para que o Brasil se consolide como fornecedor internacional?

O Brasil já demonstrou capacidade de produzir diversas variedades, cumprir padrões de qualidade e honrar compromissos comerciais. Mas essa responsabilidade também precisa ser assumida pelos importadores.

Existem casos em que compradores internacionais celebram contratos, estimulam o plantio e depois condicionam o cumprimento do acordo à possibilidade de revender a mercadoria. O Ibrafe vem instando instituições nacionais e internacionais a coibirem essas práticas e a criarem mecanismos mais eficientes de garantias, arbitragem e responsabilização.

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Carla Aranha

Carla joined CZ in 2022 having previously worked at Exame and Valor, leading economic media outlets in Brazil, where she developed projects and news coverage focusing on the agribusiness and commodities markets. Carla is responsible for writing content, providing interesting article´s subjects and reports as well as producing press releases together with the marketing team.

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