Pontos Principais

Os genéricos da semaglutida estão expandindo o mercado brasileiro de GLP-1, que cresce rapidamente. Desde a expiração da patente da semaglutida, a Anvisa aprovou seis versões nacionais do medicamento, e a expectativa é que os genéricos contribuam para o mercado quase dobrar de tamanho neste ano. Embora os custos elevados e a cobertura limitada pelos planos de saúde continuem a restringir a adesão, mudanças iniciais nos hábitos alimentares dos usuários de GLP-1 já estão atraindo a atenção de fabricantes de alimentos e varejistas no Brasil.


Em linha com o que vem sendo observado globalmente, os consumidores que utilizam medicamentos à base de GLP-1 na América Latina têm reduzido a compra de alimentos ricos em gordura e açúcar — como pães, chocolates e salgadinhos —, segundo um estudo da Worldpanel Brasil.

Fonte: Worldpanel Brazil

No Brasil, consumidores que utilizam medicamentos para perda de peso têm comprado mais produtos ricos em proteínas e fibras, como iogurtes e cereais. Por outro lado, as vendas de carnes processadas e molhos prontos permanecem estagnadas.

A busca pelo bem-estar e por uma alimentação saudável já vinha impulsionando as vendas de alimentos como iogurtes com alto teor de proteína. Entre janeiro e outubro do ano passado, o consumo desses produtos cresceu 16%, segundo uma pesquisa da Scanntech realizada em parceria com a McKinsey. A semaglutida deu um impulso adicional a essa categoria de alimentos.

Impacto sobre o Consumo Permanece Incerto

Resta saber, no entanto, o quanto esse mercado pode crescer no Brasil e que tipo de impacto isso teria no consumo.

Em mercados como o dos EUA, onde 12,5% dos adultos utilizam medicamentos à base de GLP-1, segundo o KFF Health Tracking Poll, a indústria de alimentos já monitora esse grupo de perto. A semaglutida pode reduzir o apetite e a vontade de consumir doces e alimentos ultraprocessados, o que pode alterar os hábitos de compra e alimentação dos usuários.

O Brasil está alguns passos atrás. Apenas 2,8% dos adultos utilizam medicamentos à base de semaglutida e, mesmo com o crescimento previsto, é pouco provável que esses fármacos alcancem logo uma adoção em massa. Assim, é improvável que o GLP-1 transforme o varejo alimentar em larga escala no curto prazo.

Os genéricos devem tornar o tratamento mais acessível, já que os custos mensais devem cair para cerca de BRL 300 (USD 58). Até pouco tempo atrás, marcas como Ozempic e Mounjaro dominavam o mercado brasileiro de medicamentos análogos de GLP-1, a preços mais altos. Esse cenário vem mudando desde março, quando expirou a patente da semaglutida, o princípio ativo desses medicamentos. Nos últimos meses, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou seis versões nacionais do produto.

Outros 13 pedidos de registro estão em análise, com previsão de conclusão dos processos até o final do ano. A redução de preços em relação às versões importadas, fabricadas por empresas como Novo Nordisk e Eli Lilly, deve chegar a até 60%.

Não à toa, estimativas apontam que esse mercado deve movimentar cerca de BRL 20 bilhões (USD 3,8 bilhões) neste ano, quase o dobro do valor registrado em 2025, segundo o UBS. “Consideramos 2026 um ano decisivo para a adoção em massa dos medicamentos GLP-1, impulsionada pela redução das restrições de oferta e pela expiração da patente”, afirmou a instituição financeira em um relatório.

Perspectiva Econômica Limita Consumo

O acesso financeiro aos medicamentos, no entanto, deve continuar sendo uma limitação. Mais de 60% dos brasileiros ganham até dois salários mínimos por mês, equivalente a BRL 3.242 (USD 624,90), o que deixa pouca margem para gastos com o tratamento, mesmo a um custo mais baixo.

Fonte: IBGE

“As pessoas querem emagrecer, só que elas não têm dinheiro para isso. As canetas emagrecedoras são caras e precisam ser usadas por meses”, diz Danilo Bertasi, CEO da TM&TL, empresa de telemedicina que recentemente realizou uma pesquisa sobre o tema.

Segundo o levantamento, para 73% dos consumidores o custo do medicamento é o principal empecilho para não iniciar o tratamento. O preço é considerado uma barreira até para pessoas de renda mais alta, com remuneração mensal entre BRL 8 mil (USD 1547,8 mil) e BRL 15 mil (USD 2881,7).

Ao mesmo tempo, metade dos brasileiros chega ao fim do mês sem dinheiro suficiente para pagar todas as contas, segundo uma pesquisa recente da Serasa Experian, empresa de informações de crédito e análise de dados. Com o orçamento apertado, o cartão de crédito acaba sendo utilizado para cobrir despesas essenciais, como alimentação e contas de luz.

Não é de admirar, nesse cenário, que os níveis de endividamento das famílias estejam elevados. Em julho, o percentual de famílias endividadas atingiu 82% — o maior patamar desde o início da série histórica, iniciada em 2010 —, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

Fonte: CNC

O aperto financeiro vem afetando os gastos dos consumidores. Em junho, o consumo recuou 1,7% em relação ao mês anterior, segundo o Índice de Atividade Econômica Diária (IDAT) do banco Itaú, que monitora despesas realizadas com cartões de crédito e outros meios de pagamento. Esse foi o terceiro mês consecutivo de queda, sinalizando uma desaceleração econômica.

Além disso, os consumidores com condições de adquirir produtos como as canetas emagrecedoras representam um segmento reduzido da população. Segundo a Nielsen, cerca de 70% dos usuários desses medicamentos no Brasil pertencem às classes socioeconômicas mais altas e têm entre 36 e 50 anos — um perfil demográfico geralmente associado a maior estabilidade profissional e financeira.

Esse cenário, no entanto, pode mudar a longo prazo. O sistema público de saúde já deu início a testes, em pequena escala e com grupos de controle, para avaliar a eficácia e o custo-benefício dos medicamentos da classe GLP-1.

Sistema Público de Saúde Testa Remédios GLP-1 em Projetos Piloto

Em junho, o Ministério da Saúde lançou um projeto-piloto em um hospital público de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, envolvendo 250 pacientes com obesidade grave. “O objetivo é avaliar como o tratamento pode ser adaptado à realidade do sistema público de saúde e analisar o custo da terapia”, afirmou a pasta. A previsão é que o estudo seja concluído em dois anos.

Governos estaduais e municipais começaram a seguir um caminho semelhante. Em Goiás, a Secretaria de Saúde do estado aprovou, em março, um protocolo para tratar com semaglutida um grupo de jovens com obesidade. No Rio de Janeiro, 320 pessoas estão recebendo as injeções em uma unidade de saúde municipal.

Por enquanto, no entanto, o governo tem resistido à ideia de incluir medicamentos da classe GLP-1 na lista de tratamentos oferecidos nacionalmente pelo sistema público de saúde, alegando custos elevados. As operadoras de planos de saúde adotaram uma postura semelhante.

Mas esse cenário pode mudar se os preços caírem gradualmente ao longo do próximo ano, com a chegada de mais medicamentos genéricos e uma maior oferta do produto.

Indústria de Alimentos e Varejo se Adaptam às Novas Tendências

“Estamos ampliamos a oferta de produtos como bebidas proteicas, granola e sementes”, disse Belmiro Gomes, CEO da rede de supermercados Assaí, uma das maiores do país, durante a conferência de resultados do primeiro trimestre. A empresa disse estar atenta à migração do consumo de alimentos ricos em carboidratos para categorias com maior teor de proteína.

De olho da demanda por alimentos proteicos, a Danone aumentou, em agosto, a capacidade de produção de sua fábrica em Poços de Caldas, em Minas Gerais. A multinacional francesa investiu cerca de BRL 1 bilhão (USD 192,7 milhões) na operação brasileira nos últimos anos.

“O objetivo é acompanhar uma transformação de hábitos de consumo”, afirmou Mário Rezende, vice-presidente de Operações da Danone no Brasil, Mário Rezende. A unidade produz marcas de bebidas lácteas e iogurte como YoPRO, Danone e Danette.

O varejo alimentar também está atento ao maior consumo de proteínas, inclusive aquelas de origem animal. “Hoje, você entra em um supermercado e tem até dificuldade de escolher o ovo de tanta variedade que tem. Existem ovos de galinhas criadas livres de gaiolas, ovos com mais ômega 3, ovos orgânicos e por aí vai”, diz Marcio Milan, vice-presidente da Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS).

“Tudo isso veio no sentido de atender um consumidor que está mais preocupado com a saúde e bem-estar”, afirmou Milan. Os números confirmam essa percepção. O consumo de ovos aumentou cerca de 62% entre 2016 e 2025, segundo a Euromonitor.

Fonte: Euromonitor

De modo geral, os alimentos frescos têm se beneficiado da crescente rejeição aos produtos ultraprocessados, segundo a Euromonitor. Nos próximos anos, o papel das canetas emagrecedoras nos hábitos de consumo deve ficar mais claro à medida que o acesso a esses medicamentos aumentar. A definição de políticas públicas relacionadas ao uso de GLP-1 também deve desempenhar um papel decisivo.

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Carla Aranha

Carla joined CZ in 2022 having previously worked at Exame and Valor, leading economic media outlets in Brazil, where she developed projects and news coverage focusing on the agribusiness and commodities markets. Carla is responsible for writing content, providing interesting article´s subjects and reports as well as producing press releases together with the marketing team.

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