Pontos Principais
O Brasil mudou o foco para a produção doméstica de fertilizantes em meio à instabilidade internacional. A Petrobras reiniciou as operações de duas instalações em janeiro, enquanto empresas privadas estão expandindo a capacidade em todo o setor. Esses esforços visam reduzir a dependência de fertilizantes importados.
O Brasil se consolidou como um dos setores agrícolas mais competitivos do mundo, mas ainda enfrenta um desafio: sua dependência de fertilizantes importados. Aproximadamente 85% de todos os fertilizantes utilizados no Brasil são provenientes do exterior.

A infraestrutura limitada para a distribuição de gás natural, um insumo essencial para a fabricação de fertilizantes, é um grande obstáculo. O alto investimento de capital necessário para a construção de instalações industriais no setor, aliado ao preço geralmente competitivo dos produtos importados, representa outro desafio.
O forte crescimento do agronegócio também acentuou o descompasso entre a oferta nacional e a demanda. Nos últimos 10 anos, as importações totalizaram aproximadamente USD 129 bilhões, tornando os insumos agrícolas o segundo maior item da carteira de importações do Brasil, atrás apenas do óleo combustível.

Fonte: Comex
Em 2022, os importadores anteciparam as compras de fertilizantes devido ao início da guerra entre a Rússia e a Ucrânia, países que são os principais fornecedores de insumos agrícolas — os preços dispararam ao longo do ano.
No ano passado, as tensões no Oriente Médio, incluindo paralisações temporárias da produção em países como Irã e Egito, também impulsionaram o aumento dos preços. Ao mesmo tempo, a demanda global permaneceu forte. Para a ureia, um fertilizante essencial, o aumento de preço chegou a quase 22% em comparação com 2024.

Fonte: Comex
Diante da crescente demanda por fertilizantes, que estão sujeitos a instabilidades geopolíticas que afetam os preços, tanto o setor privado quanto o governo estão começando a investir mais na produção local.
Em janeiro, a Petrobras retomou a produção de fertilizantes nitrogenados em suas instalações em Sergipe e na Bahia — operações que haviam sido suspensas nos últimos anos devido aos planos de desinvestimento da empresa.
Juntas, as duas instalações devem produzir 3,1 mil toneladas por dia de ureia, o equivalente a 12% do mercado nacional, segundo a Petrobras. Embora haja dúvidas sobre a estratégia a longo prazo para a retomada da produção de fertilizantes, já que a empresa depende de decisões governamentais, esse tipo de iniciativa pode ajudar a reduzir a dependência de importações.

Instalação de produção de fertilizantes
No setor privado, alguns projetos também estão se concretizando. Em 2024, a EuroChem, multinacional de nutrição agrícola, inaugurou um complexo industrial em Minas Gerais com capacidade de produção de 1 milhão de toneladas de fertilizantes fosfatados por ano. A Galvani, que também produz fosfatos, anunciou planos para dobrar a produção até 2030, atingindo 1,5 milhão de toneladas por ano.
O aumento da produção no Brasil continua focado em fertilizantes fosfatados. O segmento se beneficia de um ambiente doméstico favorável: o fosfato está disponível no Brasil, e as iniciativas já em andamento provavelmente atrairão capital privado a curto e médio prazo.
Como resultado, crescem as expectativas de que o setor nacional acelere a produção com mais força, ultrapassando o nível atual de 6 a 7 milhões de toneladas por ano.

Fonte: ANDA
Para o potássio, os investimentos dependem de um licenciamento ambiental e social robusto, financiamento estruturado e estabilidade jurídica. Mesmo assim, algumas licenças foram concedidas, embora existam preocupações quanto a possíveis dificuldades.
Os fertilizantes nitrogenados, por outro lado, representam o maior desafio, com alta intensidade de capital e forte dependência de gás natural a preços competitivos, o que limita novos projetos greenfield* e favorece reativações e parcerias em instalações existentes.
*um projeto greenfield refere-se a uma iniciativa que é desenvolvida do zero, sem a influência de estruturas, processos ou sistemas existentes.
Em resumo, existe interesse de capital privado na produção de fertilizantes, mas os recursos devem ser direcionados para projetos com fontes de energia claramente definidas, licenças, logística e contratos a longo prazo.
