Pontos Principais
O Brasil foi atingido pelo aumento nos preços dos fertilizantes em meio à guerra no Irã. A forte dependência do país em relação às importações — principalmente de Omã e Qatar, que fornecem cerca de 30% da ureia utilizada no agronegócio brasileiro — deixa o país vulnerável, já que o conflito afeta importantes produtores e rotas comerciais. O aumento dos custos do insumo deve reduzir as margens de lucro dos produtores, com a oferta doméstica limitada proporcionando pouco alívio.
A forte dependência do Brasil em relação à importação de fertilizantes tem gerado uma preocupação significativa, considerando a escalada dos preços do insumo causada pela guerra no Oriente Médio. O país importa cerca de 80% a 85% de todos os fertilizantes que utiliza, sendo grande parte proveniente da região do Golfo Pérsico, epicentro do conflito com o Irã.
Países como Omã, Qatar e Arábia Saudita são parceiros históricos do agronegócio brasileiro no fornecimento de ureia, insumo essencial para diversas culturas. No ano passado, esses países representaram cerca de 30% da ureia importada pelo Brasil, segundo a Comex.

Fonte: Comex
O Oriente Médio, incluindo o Irã, é um dos maiores participantes globais na produção e exportação de fertilizantes. Atualmente, cerca de 30% da ureia comercializada mundialmente passa pelo Estreito de Ormuz, no Golfo Pérsico, assim como 44% do enxofre utilizado na fabricação de fertilizantes fosfatados, que melhoram a eficiência da adubação, segundo o Rabobank.
Com a interrupção do tráfego marítimo na região, os preços desses insumos dispararam. A suspensão das operações em usinas de gás natural e fertilizantes no Qatar, devido à guerra, também contribuiu para a onda de aumento de preços.
Em 15 de março, os contratos futuros CFR de ureia para entrega no Brasil em abril era cotado a USD 690 por tonelada na Chicago Board of Trade — mais de 20% acima do valor registrado no início do mês. Em comparação com o preço pago nos portos brasileiros no início do ano, o aumento chega a 60%.

Fonte: Comex
No Brasil, o cenário de compra de fertilizantes é um pouco menos crítico do que no Hemisfério Norte, embora já haja preocupações significativas. Enquanto os produtores nos EUA e na Europa correm para garantir insumos para as safras de primavera, os produtores brasileiros têm uma janela maior para realizar essas compras.
A demanda por fertilizantes no agronegócio brasileiro tende a ganhar força no segundo semestre, quando os produtores se preparam para o plantio da soja — que geralmente começa a partir de setembro ou outubro — e de outras culturas como milho e algodão. Em meses como julho e agosto, as compras costumam atingir o pico.

Fonte: Comex
Em meio à guerra no Oriente Médio, muitos produtores estão optando por adiar a compra de fertilizantes, enquanto outros estão traçando estratégias para contornar o aumento dos preços. No início de março, apenas 30% do volume estimado de fertilizantes para as safras de 2026/2027 havia sido comprado, em comparação com uma média de 40% nos últimos anos, segundo um levantamento do banco Itaú.
Os produtores que já investiram em correção do solo e plantio direto — técnicas que aumentam a fertilidade da área de plantio — têm a possibilidade de usar quantidades menores de fertilizantes safra de soja. Além disso, a capacidade da própria soja de fixar nitrogênio da atmosfera reduz a necessidade de fertilização nitrogenada mais intensiva.
Proprietários de fazendas com tecnologia mais avançada estão revendo o volume de compra de fertilizantes. É o caso de Eduardo Intravini, que cultiva grãos em 34.500 hectares no Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. “Como a fertilidade do solo já foi construída e investimos em tecnologia, a ideia é reduzir um pouco a compra de fertilizantes nesta safra para cortar custos”, afirma.

Eduardo Intravini
Os produtores também estão acompanhando de perto os preços dos fertilizantes fosfatados e potássicos, amplamente utilizados em quase todas as culturas. A principal preocupação é a redução da oferta. A China, um dos maiores exportadores mundiais de fertilizantes fosfatados, anunciou restrições às vendas externas do insumo pelo menos até agosto, para garantir o abastecimento doméstico e controlar os preços.
Embora esses fertilizantes tenham apresentado aumentos menores do que a ureia — com os principais produtores globais localizados fora da zona de conflito — os sinais de alerta aumentam à medida que a guerra se prolonga. Em 17 de fevereiro, a Arábia Saudita — um dos maiores exportadores mundiais de fertilizantes fosfatados — anunciou que redirecionará os embarques para o porto de Yanbu, no Mar Vermelho, devido à impossibilidade de utilizar o Estreito de Ormuz.

Fonte: UN Comtrade
Os carregamentos de fertilizantes precisarão atravessar o país por caminhão, percorrendo 1.200 km, já que a produção, administrada pela Maaden, ocorre em Ras Al Khair, na costa do Golfo Pérsico. Uma redução nos volumes de exportação é, portanto, possível, limitando a oferta global.
Alguns setores já estão calculando os prejuízos causados por essas interrupções. O Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (IMEA) estima que um aumento de 30% no preço da ureia elevaria os custos totais da safra de milho em 4,68%, já que a ureia é necessária para o desenvolvimento da espiga e o enchimento dos grãos. Em outras palavras, deve haver uma redução nas margens de lucro
Ao mesmo tempo, a produção doméstica de fertilizantes tem proporcionado pouco alívio aos produtores. Apesar dos esforços realizados nos últimos anos, as plantas domésticas atendem a pouco mais de um décimo da demanda.

Instalação química de produção de amônia e fertilizantes nitrogenados
Alguns produtores da Bahia, Goiás e Mato Grosso estão adquirindo fertilizantes de duas fábricas da Petrobras que iniciaram recentemente operações na Bahia e em Sergipe. Juntas, essas unidades produzem cerca de 3.100 toneladas de ureia por dia, o equivalente a aproximadamente 11% da demanda nacional, segundo a empresa.
A Petrobras planeja inaugurar outra instalação, a Araucária Nitrogenados (Ansa), no Paraná, no primeiro semestre. A unidade terá capacidade para produzir 720.000 toneladas de ureia e 475.000 toneladas de amônia anualmente, utilizadas na fabricação de fertilizantes nitrogenados.
Com isso, 20% da demanda nacional por fertilizantes nitrogenados deverá ser atendida. Os 80% restantes devem continuar vindo do exterior. Em um cenário de interrupção global na cadeia de nutrientes agrícolas, é pouco provável que isso segure os preços ou alivie de forma significativa os prejuízos na agricultura.