Pontos Principais
Tarifas americanas prejudicam as exportações de café brasileiro. As negociações de novos contratos estão desacelerando, ameaçando as vendas de café convencional e especial. Redirecionar as remessas será difícil, embora existam oportunidades emergentes na Ásia e no Oriente Médio.
Tarifas Causam Disrupção no Mercado de Café Brasileiro
Normalmente, a perspectiva de uma safra positiva depois de ciclos desafiadores devido a condições climáticas adversas, estaria levantando o ânimo dos cafeicultores. A produção vem crescendo —neste ano, devem ser produzidas 55,67 milhões de sacas de 60 quilos, 2,7% a mais que na temporada anterior, segundo a Conab.

Fonte: Conab
Neste ano, no entanto, não tem sido assim. Desde a entrada em vigor das tarifas de 50% impostas pelos Estados Unidos, em agosto, o clima azedou no mercado brasileiro de café. “Ainda não houve suspensão de contratos, mas o ritmo das negociações diminuiu muito”, diz Aguinaldo Lima, diretor executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café (ABICS).
Conforme o tempo passa, a apreensão aumenta. Até agora, não há sinalização visível sobre uma eventual reversão das tarifas, embora produtores e exportadores brasileiros venham mantendo diálogo com a indústria e o governo americano.
Conforme o tempo passa, a apreensão aumenta. Até agora, não há sinalização visível sobre uma eventual reversão das tarifas, embora produtores e exportadores brasileiros venham mantendo diálogo com a indústria e o governo americano.

Fonte: USDA
Boa parte da indústria americana tem estoques que podem durar entre 30 e 60 dias. Mas os importadores já começam a olhar para outros mercados. Um deles é a Colômbia, sujeita a uma tarifa muito menor, de 10%. O México, outro importante fornecedor da commodity para os EUA, também está no radar.
Esses países — como o Brasil — são grandes produtores da variedade Arábica, preferida pelos americanos. Cerca de 92% de todas as importações de café para os EUA são historicamente de Arábica, de acordo com o USDA.
O café Robusta, no entanto, gradualmente conquistou espaço no mercado americano devido a menores custos de produção e preços competitivos. Grande parte do Robusta consumido nos EUA — proveniente principalmente de países como o Vietnã — é usado em café solúvel e blend, com maior valor agregado.
Com as novas tarifas americanas, começaram a surgir questões sobre até que ponto produtores como o Vietnã podem aumentar os embarques de Robusta para os portos americanos. Por enquanto, não há uma resposta conclusiva, já que a resposta depende de hábitos de consumo, dinâmica de preços e fatores geopolíticos mais amplos.
Reconfigurações de Fluxos Comerciais Afetam Preços
Com a demanda firme e a expectativa de queda na oferta global devido ao aumento de tarifas dos EUA — especialmente em relação ao Brasil —, os preços internacionais do café subiram cerca de 30% em agosto. Os efeitos das novas tarifas de importação americanas, no entanto, devem ter um impacto maior nos próximos meses.

Fonte: Comex
Tradicionalmente, as exportações brasileiras aumentam entre setembro e novembro. Neste ano, no entanto, um volume menor de café brasileiro pode chegar aos portos.
Alguns produtores estão optando por armazenar parte da safra na esperança de que as tarifas sejam revertidas. A queda dos preços no mercado brasileiro também vem contribuindo para essa decisão. Em julho, houve deflação no preço do café em torno de 1%, contrariando um longo período de alta de 18 meses em que problemas climáticos prejudicaram as lavouras.
Os próximos meses vão ajudar a direcionar novas análises sobre o comportamento dos preços em 2026. Até a entrada em vigor das tarifas do presidente Donald Trump, a expectativa geral era de queda dos preços globais devido às melhores colheitas no Brasil e na Colômbia. Embora alguns analistas continuem apoiando esse argumento, parte do mercado está revisando suas projeções.
Brasil Estuda Rotas Alternativas para Abastecer os EUA
Do lado brasileiro, há a possibilidade de um eventual aumento de exportações para países europeus, que estão entre os principais compradores do café brasileiro. Mas esse não é um movimento simples. “A demanda não costuma aumentar a ponto de estimular significativamente novos embarques”, diz Lima.

Fonte: ComexSem soluções fáceis de curto prazo, o mercado começa a contabilizar perdas. Ao mesmo tempo, novas alternativas estão sendo estudadas. Uma delas é exportar café para países como a Colômbia, o segundo maior fornecedor de café para o mercado americano, em um contexto de reconfiguração dos fluxos comerciais.
A recente autorização de 183 estabelecimentos brasileiros para exportar café para a China também abriu uma nova janela de oportunidade, embora o país ainda não esteja entre os principais compradores do café brasileiro.
Cafés Especiais na Berlinda
O mercado de cafés especiais, de maior valor agregado, vive um dilema semelhante, com os Estados Unidos liderando as exportações brasileiras. O restante das vendas externas é concentrado em dez países, entre eles a Alemanha e a Bélgica.

Fonte: Cecafé.
A falta de diversificação das exportações representa um agravante adicional nesse cenário. “A demanda nos países compradores dificilmente crescerá o suficiente para compensar as exportações para os EUA”, avalia Vinicius Estrela, diretor executivo da Associação Brasileira de Cafés Especiais. Há também relatos de que alguns importadores estariam tentando reduzir o prêmio pago pelo café brasileiro.

Vinicius Estrela. Crédito: divulgação.
Nos Estados Unidos, o principal movimento tem sido a busca pela diversificação de fornecedores. Países como o Panamá, conhecido por seus solos vulcânicos férteis, onde se cultiva café Arábica de alta qualidade, são considerados candidatos naturais para atender à demanda americana. A Etiópia, que oferece uma ampla variedade de grãos Arábica — os favoritos dos americanos —, também está bem-posicionada nesse cenário, assim como a Colômbia.
No mapa de novos destinos para o café especial brasileiro, a China e o Oriente Médio vêm despontando com maior destaque. Na China, o aumento da renda tem estimulado o consumo de cafés especiais, vendidos no varejo e em cafeterias.
No Oriente Médio, os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita impulsionam o aumento da demanda, com a instalação de multinacionais do setor na região e a popularização do consumo de cafés especiais. No curto prazo, entretanto, não devem ocorrer mudanças significativas nos fluxos de exportação.