Pontos Principais

O Brasil poderá ter mais uma safra recorde de grãos, mas os agricultores permanecem cautelosos. O aumento dos custos de produção e as altas taxas de juros, atualmente em 15%, pesam sobre a margem de lucro. A crescente adoção de bioinsumos produzidos domesticamente, no entanto, pode ajudar a aliviar parte dessa pressão sobre os custos. 

Safra Recorde à Vista, Mas Desafios Persistem

O clima favorável no Centro-Oeste do Brasil acelerou o plantio, com mais de 34% da área de soja já semeada e 40% da primeira safra de milho plantada em condições igualmente favoráveis — dando aos agricultores motivos para otimismo.

Nesse ritmo, o Brasil deverá colher mais uma safra recorde. O primeiro levantamento da Conab prevê uma produção de grãos de 354,5 milhões de toneladas em 2026 — quase 1% a mais que neste ano —, um novo recorde. 

Fonte: Conab

Para os agricultores, no entanto, ainda é cedo para comemorar. Fatores como a alta taxa de juros, de 15% ao ano, o que encarece o crédito, e o aumento dos preços dos insumos podem ameaçar as margens de lucro. 

O preço da ureia, por exemplo — um dos principais componentes dos fertilizantes — subiu cerca de 23% desde 2024. Neste ano, o sinal de alerta começou a piscar em julho, quando os preços da ureia voltaram a subir. 

Fonte: Comex.

O conflito no Oriente Médio afetou a produção em países como Irã e Egito, que desempenham um papel significativo no fornecimento global de ureia. No Egito, a produção caiu devido à escassez de gás natural — matéria-prima essencial para a fabricação de fertilizantes —, parte do qual o país importa de Israel. 

No Irã, algumas fábricas tiveram sua produção reduzida devido aos riscos relacionados à guerra. As taxas de frete marítimo em rotas que atravessam zonas de conflito também aumentaram, elevando os custos.

A curto prazo, não se espera que os preços sofram alterações significativas. Os fatores geopolíticos devem continuar a influenciar esse cenário — e o fato de a Rússia ser um dos principais fornecedores de fertilizantes químicos para o Brasil não ajuda. Com o país sob sanções devido à guerra na Ucrânia, o seguro marítimo e outros custos aumentaram de forma considerável. 

Fonte: Comex.

Bioinsumos Ganham Terreno

Para contornar os altos custos de produção — e para fortalecer seus esforços de sustentabilidade — os agricultores têm adotado cada vez mais bioinsumos, produzidos domesticamente. 

Esses produtos são desenvolvidos a partir de microrganismos como bactérias, algas, leveduras e extratos vegetais, e são utilizados para nutrição e controle de pragas em plantações. Uma importante vantagem é que podem ser produzidos nas próprias fazendas, com a orientação de profissionais especializados, otimizando custos. Os bioinsumos que auxiliam na fixação de nitrogênio, um nutriente essencial para as plantas, aumentam a eficiência dos nutrientes presentes no solo. 

Um estudo da CropLife, uma organização sem fins lucrativos que representa empresas envolvidas em pesquisa e desenvolvimento de insumos para a agricultura sustentável, mostra que o uso de bioinsumos cresceu 13% na temporada 2024/25. Fertilizantes e pesticidas de origem biológica, produzidos a partir de microrganismos como bactérias e fungos, assim como extratos vegetais, foram utilizados em aproximadamente 156 milhões de hectares.

Empresas do setor têm investido no lançamento de novos bioinsumos — que precisam ser registrados e aprovados pelo Ministério da Agricultura antes de chegarem ao mercado. Nos últimos anos, a burocracia para o registro de novos produtos foi reduzida, tornando o processo mais ágil. 

Fonte: CropLife.

Gastos Públicos Pressionam a Economia

No entanto, a dependência de insumos importados não deve diminuir de forma significativa a curto prazo. A economia também continua sendo uma preocupação. Nesse caso, a atenção tem se concentrado no aumento dos gastos públicos e seu impacto em variáveis-chave, como a taxa de juros. 

Fonte: Tesouro Nacional do Brasil 

Parte desse gasto público foi direcionada para a expansão de programas sociais, que colocam mais dinheiro em circulação, estimulando o consumo. Para conter a inflação, o Banco Central manteve uma taxa de juros elevada. 

Fonte: Banco Central .

Como resultado, o crédito se torna caro, impactando o agronegócio — que representa um quarto do PIB brasileiro —, assim como outros setores da economia. O custo do crédito rural, por exemplo, já aumentou. 

As taxas de juros do Plano Safra, programa do governo federal que financia o agronegócio por meio de crédito concedido pelo Banco do Brasil, foram reajustadas para a próxima safra, com média entre 8,5% e 14%. Mais do que nunca, uma gestão financeira rigorosa e novos ganhos de produtividade serão essenciais.

Carla Aranha

Carla joined CZ in 2022 having previously worked at Exame and Valor, leading economic media outlets in Brazil, where she developed projects and news coverage focusing on the agribusiness and commodities markets. Carla is responsible for writing content, providing interesting article´s subjects and reports as well as producing press releases together with the marketing team.

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