Pontos Principais

A União Europeia postergou a entrada em vigor de sua lei antidesmatamento, a EUDR. O adiamento abre espaço para o bloco simplificar a regulamentação após pressões de grandes exportadores como o Brasil, Estados Unidos e Índia. O atraso, oficialmente atribuído a problemas de TI, reflete amplas preocupações com custos, segurança de dados e uma classificação de risco complexa. 

O novo adiamento da entrada em vigor da EUDR — a lei europeia antidesmatamento — não chegou a pegar de surpresa parte do mercado, devido às incertezas sobre a regulamentação. Produtores brasileiros, por exemplo, já vinham expressando preocupação sobre a extensão da documentação exigida, principalmente em relação a pequenos agricultores. 

A EUDR se aplica a produtos como soja, cacau e óleo de palma, que não podem vir de áreas desmatadas. 

Terra é desmatada para produção de óleo de palma ao lado da floresta tropical na Indonésia.

A expectativa inicial era que a regulamentação entrasse em vigor no final de 2024. Mas a falta de clareza sobre os procedimentos exigidos e a pressão exercida por diversos países acabou levando ao adiamento para dezembro deste ano. Em setembro, a Comissão Europeia voltou atrás mais uma vez, adiando a data para dezembro de 2026. 

O argumento oficial para o novo adiamento foi um problema no sistema de TI. Nos bastidores, porém, países como os EUA, Índia e Brasil vinham intensificando as pressões por regras mais simples.

Agora, a dúvida gira em torno de uma possível reformulação da lei — e da viabilidade de sua implementação efetiva até 2026. Em entrevista ao CZ App, Bruno Capuzzi, economista especializado em assuntos regulatórios da União Europeia e pesquisador do European University Institute, discute quando a lei pode de fato ser implementada. 

Bruno Capuzzi. Foto divulgação.

A implementação foi adiada de fato por problemas de TI?

Esse foi um dos problemas, mas não o único. A União Europeia começou a testar o sistema de TI há algum tempo. Os importadores europeus, que poderão ser multados caso haja irregularidades em relação às exigências previstas, foram inclusive convidados a testar a plataforma. Conversei com alguns e eles disseram que o sistema não funcionava como deveria. Em alguns casos, por exemplo, as imagens de satélite das áreas agrícolas não carregavam corretamente. 

Há preocupações também com a segurança de dados. Alguns parceiros comerciais da UE, como os EUA, se mostraram especial apreensão em relação a esse aspecto. 

E quais foram os outros motivos para a postergação da implementação da lei?

Há um ponto sensível: a classificação de risco dos países. Esse sistema, que classifica os países em níveis de baixo, médio ou alto risco de desmatamento, só foi finalizado recentemente.

Um dos desafios é que, em alguns países, dados sobre temas como proteção ambiental e expansão da fronteira agrícola podem estar disponíveis. Mas, em outros países, podem ser escassas. Aplicar os mesmos critérios a realidades distintas acaba sendo problemático e pode resultar em discriminação.

Na prática, a classificação assumiu um contorno político. Países da América do Norte e da União Europeia foram considerados de baixo risco. Já muitos países da América Latina, como Brasil e Argentina, receberam a classificação de risco médio. Países sob sanções econômicas, como a Rússia, foram considerados de alto risco. 

Qual foi a consequência disso nas discussões na UE sobre a lei?

Gerou uma crítica interna grande. Alguns países se posicionaram formalmente na União Europeia contra a classificação de risco. É o caso do Brasil, Turquia e EUA, por exemplo. Vale lembrar que o Brasil é um grande fornecedor de alimentos para o continente europeu e os custos maiores gerados pela lei podem encarecer as trocas comerciais.

Fonte: Comex

Por que os EUA, classificados como um país de baixo risco, reclamaram da lei?

Os EUA exportam grandes volumes de soja para a UE, e essas exportações incorrerão em custos mais elevados, pois será necessária documentação – como imagens de geolocalização – para comprovar que o produto não se originou de áreas desmatadas. Essa exigência se aplica a todos os países, incluindo aqueles considerados de baixo risco. 

Fonte: USDA

Há outra questão: cada país tem sua própria legislação ambiental, e uma lei supranacional como o EUDR não pode se sobrepor à legislação nacional. Os EUA seguem seu próprio modelo de gestão florestal, assim como o Brasil adotou o Código Florestal, que estabelece limites ao desmatamento e regras de preservação ambiental para propriedades rurais. 

Além disso, a UE pode alterar a classificação de risco de um país se as condições mudarem, o que significa que um país pode passar de baixo para médio risco.

Quais documentos os países de baixo e médio risco precisariam apresentar? 

Países de baixo risco precisariam apresentar menos documentos do que países de médio risco. Podem ser imagens de satélite e documentos fornecidos por autoridades locais comprovando que o produto não provém de áreas desmatadas, por exemplo. 

Para países de médio risco, como o Brasil, o volume de documentação e o nível de detalhamento são maiores. A lei prevê uma avaliação de risco, mas ainda não está totalmente claro o que precisará ser apresentado. De acordo com a regulamentação, essa análise deve considerar indicadores como o grau de desmatamento no país e o cumprimento da legislação ambiental.

Mas não é complexo fazer esse tipo de análise?

Sim. Junte-se a isso os problemas de TI e temos a receita para rediscutir a lei, como está acontecendo. Outro aspecto que precisamos lembrar é que houve eleições para o Parlamento Europeu em 2024. A nova configuração do Parlamento Europeu, que pende mais para a direita, começou a questionar algumas regulamentações ambientais aprovadas na legislatura anterior. 

A percepção é que não favorecem o comércio. No caso da EUDR, os pequenos e médios produtores poderiam até ser excluídos das exportações por causa da dificuldade em providenciar a documentação necessária e arcar com os custos resultantes.

Fonte: IBGE

O que mais mudou em relação à visão sobre a EUDR?

A percepção agora é de que a regulamentação foi criada por ambientalistas, e não técnicos ou especialistas em comércio. Alguns eurodeputados que assumiram no ano passado chegaram a pedir que fosse criada a categoria de zero risco, mas isso não foi aceito. Outros questionaram o modo como a classificação de risco foi feita. Várias questões técnicas também foram levantadas. 

Uma das principais é sobre a dificuldade de segregar produtos como a soja, que precisaria ser separada na fazenda, no transporte e até no porto. Existe uma complexidade logística grande nisso e a soja também ficaria bem mais cara, assim como os demais produtos incluídos na EUDR. 

Qual pode ser o futuro da EUDR? 

Uma das propostas mais fortes é a simplificação da lei. A ideia é enxugar as exigências. Os importadores europeus sugeriram que, no caso de compras constantes de um fornecedor, por exemplo, a documentação ambiental poderia ser apresentada uma única vez. Aí, o fornecedor já estaria certificado. Essas ideias estão em discussão.

A lei pode ser de fato implementada em dezembro de 2026? 

Alguns membros da Comissão Europeia gostariam que essa lei fosse esquecida, por motivos que vão da complexidade das exigências até o impacto na economia europeia. Custos mais altos de importação em geral são repassados ao consumidor, gerando inflação. Mas tudo por acontecer. O caminho mais provável é a simplificação da lei, com a entrada em vigor no final do ano que vem. 

Carla Aranha

Carla joined CZ in 2022 having previously worked at Exame and Valor, leading economic media outlets in Brazil, where she developed projects and news coverage focusing on the agribusiness and commodities markets. Carla is responsible for writing content, providing interesting article´s subjects and reports as well as producing press releases together with the marketing team.

Mais deste autor